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27 de março de 2012, 19:21

A Pedra de Tué


Os outros bairros de Patos talvez não saibam que no Jardim
Guanabara de alguns anos atrás havia uma pedra que era meio
que “mística para os místicos”, meio que “poética para os poetas”,
meio que “romântica para os românticos”, e até meio que “gótica
para os góticos”.

Era a famosa Pedra de Tué, de três ou quatro metros de
altura, que ficava nas proximidades da escola Aristides Hamad
Timene, e se parecia uma montanha para as crianças do bairro.
Quando se é pequeno tudo se agiganta e eu subia aquela rocha
achando que estava escalando o Everest. E gritava para os
demais: “o último a chegar é ‘mulher do padre’”.

Coisa de moleque buchudo.

E naquele tempo todos os moleques eram buchudos. Essa
gurizada de hoje, criada com toddynho e danoninho, e que
nunca “comeu uma castanhola” ou brincou de “matada”, não se
diferencia muito de um robô ou de um ferro de engomar.

Tudo bem, cada época com seu charme e sua magia, e
reconheço que o Harry Potter de hoje seria meu ídolo se ele já
existisse na minha infância, e é claro que eu não vou discutir com
uma criança dizendo para ela que os desenhos animados de Bob
Esponja ou As Meninas Super Poderosas não são tão bons quanto
os ThunderCats ou o Papa-Léguas, nem teimar que jogar Counter-
Strike não é tão interessante quanto jogar “travinha” numa tarde
de chuva, e muito menos vou dizer que ficar o dia todo no Orkut
em paqueras virtuais não chega nem perto da brincadeira do
caí-no-poço, onde os meninos tinham namoricos reais com as
menininhas do bairro.

Eu nunca soube por que a Pedra de Tué se chamava Pedra
de Tué. Na minha infância existia uma versão, vinda lá das
bandas do oriente, trazida pelos “reis magros”, que dizia que o
nome Pedra de Tué se deu por conta da famosa frase do nazareno:
“Pedro, tu és pedra e sobre essa pedra edificarei minha igreja”.

Pois é, diziam em tom de brincadeira que a Pedra de Tué
fora batizada pelo famoso Jesus Cristo. É muita honra para uma
pedrinha.

Como o progresso não respeita sentimentos, a Pedra de Tué
fora destruída, esmagada pela explosão imobiliária. O profeta
estava certo: “nada de novo sob o Sol”. Sempre o velho progresso
transformando árvores em guarda-roupa, transformando jacarés
em sapatos, derrubando a serra para fazer paralelepípedos.

Todos nós temos uma canção psicológica para cantar, e a
Pedra de Tué serve de refrão para muitas canções, pois foi parte
da infância de muita gente, principalmente dos ex-alunos do
Aristides e jogadores de pelada do bairro, pois ao lado da pedra
ficava um campinho de futebol.

Eu sei que o bairro do Juá Doce não sabe das idiossincrasias
do bairro do Jatobá, e vice-versa; sei que o Noé Trajano não
sabe das particularidades do Jardim Guanabara, e “versa-vice”,
no entanto, como diz aquela canção, “toda cidade é uma lenda”,
e cada pessoa tem a sua historinha de vida e de saudades para
contar.

E a minha já está sendo contada.

Wandecy Medeiros - wandecymedeiros@gmail.com


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