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06 de junho de 2012, 21:37

Entre Césares e Papas


Fiquei dez dias em Roma, conhecendo césares, papas e “caravaggios”. Roma provoca os sentidos, principalmente a visão: os olhos são inundados por estátuas, pinturas e templos, monumentos soberbos dos césares e da Igreja Romana.

Os cristãos do mundo inteiro que visitam a cidade são invadidos pela mística católica que permeia a Itália; os não-religiosos, como eu, são tomados por séculos de histórias e lutas sem fim, pois estamos falando de Roma, aquela mesma Roma que existe dentro dos livros, a mesma Roma que um dia fora incendiada e depois reconstruída; a mesmíssima Roma da espetacular arte dos mestres renascentistas; a Roma que um dia dominou o mundo pela força e pela espada; a grande Roma, cuja população, acuada certa vez por guerras e misérias, comia gatos para não morrer de fome e por isso hoje esses bichanos são protegidos pelo governo e quase sagrados na cidade. Roma é cheia de gatos, bichos amados e bem tratados, e ai de quem agredir um deles.

Na capital mundial do Cristianismo o capitalismo é mais selvagem do que a besta-fera.  A capital da Itália é uma cidade abarrotada de golpistas, “ladrões” devidamente credenciados para “roubar”. É um taxista que lhe cobra um “milhão de euros” para lhe levar ao Vaticano, é um vendedor de souvenirs que lhe cobra “dois bilhões de euros” por uma lembrançinha do Coliseu, é um restaurante que lhe cobra “três trilhões de euros” por um almoço.

Eu estudei um pouco de italiano antes de viajar, mas infelizmente não aprendi um único palavrão no idioma de Dante para poder mandar aqueles pilantras se lascarem! O capitalismo é tão cruel que você acaba se convencendo que o melhor é viver como anacoreta ou como freira. Deve ser por isso que existem tantos conventos na cidade. 

Agora vamos tratar do que é bom: o pão nosso de cada dia. As refeições na Itália acontecem em três tempos: o primeiro prato é massa, muita massa; o segundo prato é tão massa quanto o primeiro; já o terceiro é tão massa quanto o segundo e o primeiro. E se tiver um quarto prato, como às vezes tem, é massa de novo. Se a Fênix nasceu das cinzas, a Itália nasceu do trigo.

 A sobremesa não é massa, mas, conforme a gíria brasileira: é “massa”. Os italianos são apaixonados por doces, e lá existe uma variedade quase infinita de guloseimas, e sempre se pesquisa e se lança no mercado novos sabores, de forma que uns 30% das prateleiras dos supermercados italianos são ocupadas por todo tipo de iguarias açucaradas.

Na Itália, de fato, se come muito bem, e se come muita carne também, principalmente a suína, que é de excelente qualidade; e se come também muito queijo de búfala (e é gostoso pra caramba) e existe uma variedade quase ilimitada de pizzas – pizzas que lá se come em saquinhos, tal qual comemos pipoca no Brasil. Em Roma também se come muitos frutos do mar. Naquela cidade, se a arte não lhe conquistar, você pode ser fisgado, qual peixe, pela boca, e quem tem boca vai à... ... ...     

Roma é uma cidade bonita, cosmopolita e cheia de aviões. Os aviões riscam o céu a cada minuto, às vezes fazendo um barulho semelhante aos trovões de Zeus, aliás, de Júpiter; pois na Itália todos os deuses gregos passaram por uma adaptação, de forma que Zeus virou Júpiter, Atena virou Minerva e Poseídon virou Neptuno.  Era tanto avião que eu já estava com medo de um deles despencar na minha cabeça.  Matuto como eu sou não gostei de ver todos aqueles grilos de lata voando sobre mim. Um dia eu vi seis aviões nos céus romanos, ao mesmo tempo, e tive até medo de um se chocar com o outro e o mundo vir abaixo.

Existe muito ouro no Vaticano.  O ouro do Vaticano dá para se fabricar alianças para todos os dedos, de todos os povos do passado, do presente e do futuro. E ainda sobra uma montanha. Depois que estive em Roma e vi todo aquele ouro nas igrejas fiquei me perguntando quais as razões alegadas pelo Deus de Moisés para se irritar com os pobres hebreus que construíram um simples bezerrinho de ouro.

No Vaticano você vai ver estátuas incríveis, templos esplêndidos, amarelados de ouro, ouro arrancado dos indígenas da América Latina, isso na época das grandes navegações e da colonização, quando o europeu chegava por aqui, metia bala nos índios ou os matava com suas moléstias de branco às quais o organismo dos índios não tinha imunidade, e depois levava seus tesouros amarelos para a suprema alegria de Vossa Santidade. Se me permitem a licença poética, é tanta beleza na Itália que quase me convenci de que valeu a pena toda a violência empregada para adquiri-la.  

Eu estava acompanhado de católicos e frequentei lugares e eventos que normalmente não frequento, inclusive uma missa. Para praticar o italiano assisti uma missa, celebrada pelo vigário Luciano Morais, um patoense que faz doutorado em Roma e foi nosso guia e anfitrião na Itália. Padre Luciano tornou a nossa vida mais fácil em Roma, sem ele não teríamos aproveitado tão bem a viagem. No tocante à missa posso dizer que a minha questão não é com o ritual em si, a liturgia em si, eu tenho um problema é com a “fé”, um coração muito aberto para o ser humano e seus problemas, mas fechado para a fé e seus absurdos teológicos. Eu não assistia uma missa há muito tempo, há quase vinte anos, e nem me lembrava mais da existência do Espírito Santo. Estou surpreso: Ele ainda existe.

Também vi Vossa Santidade, o papa, na Praça de São Pedro, no encontro que ele sempre tem com os católicos do mundo inteiro. Ver o papa provoca emoções e lágrimas nos fiéis. Em mim não provocou nem uma coisa nem outra. Eu não tenho fé e nem religião, mas pelo jeito o papa nem ligou para isso e ainda bem que foi assim, pois eu não estava disposto a discutir com Bento XVI.

Chamou-me atenção o fato de que, nesse dia, músicos do Vaticano executaram um trecho de “Imagine”, a famosa canção de paz de John Lennon, cuja letra pede um mundo sem fronteiras, sem posses e sem religião. Isso mesmo: os músicos do Vaticano executaram essa canção, por assim dizer, anti-religiosa. John Lennon foi aquele cabeludo que disse certa vez que “Os Beatles são mais populares do que Jesus Cristo” e irritou cristãos do mundo inteiro, principalmente os cristãos daquela região dos Estados Unidos conhecida por Bible Belt.

Estive na Fontana di Trevi e minha vida se transformou. A arte mudou minha vida. Encontrei a salvação. Eu agora não vou mais escrever que o ser humano é uma besta quadrada, mundana e mesquinha. Não. O homem é capaz de lapidar a pedra, de fazer algo belo. O homem mata o homem, constrói aviões barulhentos e desconfortáveis, mas também é capaz de construir uma arte bela, grandiosamente bela, como a Fontana di Trevi, que já havia me chamado atenção quando assisti “La Dolce Vita”, de Fellini.

Infelizmente grande parte da humanidade estacionou no símio darwiniano. O homem faz coisas sublimes, mas foi o macaco quem venceu até agora. Sim, até os dias de hoje é o macaco quem tem dado as cartas. Vivemos numa floresta de concreto armado, com barulho para todos os lados, com monstros em todas as esquinas, com gente que nasceu apenas para soltar pum, e mais nada.

Enfim, o macaco continua vencendo, mas Albert Einstein, Michelangelo, Johann Sebastian Bach, Da Vinci, seu Atêncio Félix, meu pai, e dona Severina, minha mãe, salvaram a espécie humana da total inutilidade.  A Fontana di Trevi me fez concluir que a humanidade tem jeito, tem conserto. Não somos um caso perdido, nós temos solução. Valeu a pena a natureza ter desenhado e ter dado vida ao homem.

Roma tem muita história. É uma infinidade de informações que muitos turistas sem noção não querem nem saber, pois só se interessam em posar ao lado do Coliseu ou do Panteão de Agripa, e mais nada. O poder aquisitivo do macaco cresceu e hoje se viaja não mais por conhecimento, não mais por cultura ou conhecimento, mas meramente para postar uma foto no Facebook.

É tanta gente desmiolada querendo aparecer bem na fita que eu me pergunto se o macaco vai continuar vencendo.  Para esses “sem noção” a Grécia não vale nada, o que vale é apenas tirar uma foto no Parthenon; Roma não vale nada, penetrar na história daquelas paredes, conhecer a nossa própria história que é a história da humanidade, não parece ter qualquer valor para a maioria dessa atual geração de turistas que viaja apenas porque tem dólares para viajar, ou seja, não existe mais relação sensitiva ou imaginativa com as coisas.

De minha parte só posso tentar ser honesto em minhas opiniões e a verdade é que Roma é soberba, soberba no sentido positivo da palavra, no sentido de altivez. É verdadeiramente um museu a céu aberto, onde você pode tropeçar numa obra de arte em cada esquina. Existem tantas estátuas na Itália que é mais fácil você encontrar uma delas na rua do que encontrar um homem ,parodiando a antiga idéia ateniense de que “em Atenas era mais fácil encontrar um deus do que encontrar um homem”.

Cada estátua, cada escultura, é mais bela do que a outra, mas as obras de Michelangelo são as estrelas supremas dessa constelação.  Vi o David dele na cidade de Florença e fiquei deslumbrado. Vi o Moisés dele em San Pietro in Vincoli, em Roma, e fiquei deslumbrado pela segunda vez. Vi a Capela sistina e fiquei deslumbrado pela terceira vez

No Vaticano entramos em lugares onde normalmente os turistas não têm acesso. Um amigo do Padre Luciano, nosso guia patoense, nos possibilitou a entrada no Vaticano. É um lugar cheio de arte, de ouro, de grandeza, e é impossível não se deixar impressionar. O problema de Roma e do Vaticano, e da Itália inteira, é que tem informação visual demais, tem arte demais em cada coisa, de forma que seus olhos não alcançam o detalhe de cada obra e depois de alguns dias seu cérebro já vai vendo tudo sem aquela exclamação inicial.

De repente tudo está ali e você já não tem mais o pedaço de cérebro que permite a admiração. Ele já foi gasto por muitas coisas que você viu anteriormente.

No meu livro “A Verdade e Outras Mentiras” eu publiquei um texto intitulado “A Itália não me viu”, e isso é verdade, a Itália realmente não me viu, mas posso garantir que pelo menos eu vi um pouco da Itália. É um lindo país.

foto 1

Próximo ao Moisés de Michelangelo, em San Pietro in Vincoli

foto 2

Nas proximidades do Castelo de Santo Ângelo

foto 3

Na Fontana di Trevi

foto 4

Na cidade de Nemi

foto 5

Conhecendo o centro de Roma

foto 6

No Coliseu

Wandecy Medeiros – wandecymedeiros@gmail.com


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