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24 de julho de 2012, 10:19

Controvérsias sobre O Príncipe


 

Escrito em 1513 e dedicado a Lourenço de Medici, O príncipe têm provocado inúmeras interpretações e controvérsias. Uma primeira leitura nos dá uma visão da defesa do absolutismo e do mais complexo imoralíssimo: “É necessário a um príncipe, para se manter, que aprenda a poder ser mau e que se valha ou deixe de valer-se disso segundo a necessidade”.

Essa primeira leitura apressada da obra levou à criação do mito do maquiavelismo, que tem atravessado os séculos. Esse mito não só representa a figura do político maquiavélico,mas se estende até à avaliação das atividades corriqueiras de qualquer pessoa.

Na língua comum, chamamos preparativamente de maquiavélica a pessoa sem escrúpulos, traiçoeira, astuciosa que, para atingir seus fins, usa da mentira e da má-fé, sendo capaz de enganar tão subtilmente que pode nos fazer pensar que agirmos livremente quando na verdade somos por ela manipulados. Como expressão dessa amorosidade, costuma-se vulgarmente atribuir a Maquiavel a famosa máxima “Os fins justificam os meios”. Ora, essa interpretação se mostra excessivamente simplista e deformada do pensamento maquiavelismo e, para superá-la é preciso analisar com mais atenção o impacto das inovações do seu pensamento político.

Contrapondo-o à análise projetaria do maquiavelismo, Rousseau, no século XVIII, defende o florentino afirmando que O príncipe era na verdade uma sátira, e a intenção verdadeira de Maquiavel seria o desmascaramento das práticas despóticas, ensinado, portanto, o povo a se defender dos tiranos. Tal hipóteses se sustentaria a partir da leitura dos  Comentários sobre a primeira década de Tito Lívio, onde são desenvolvidas as idéias do Maquiavel republicano.

Modernamente, no entanto, tejeita-se a visão romântica de Rousseau, e a aparente contradição entre as duas obras é interpretada como de dois momentos diferentes da ação política. Em um primeiro estádio, representado pela ação do príncipe, o poder deve ser conquistado e mantido, e para tanto justifica-se o poder absoluto. Posteriormente, alcançada a estabilidade, é impossível e desejável a instalação do governo republicano.

Além disso, as idéias democráticas aparecem veladamente também no capítulo IX de O Príncipe, quando Maquiavel se refere à necessidade de o governante ter o apoio do povo, sempre melhor do que o apoio dos grandes, que podem ser traiçoeiros. O que está sendo timidamente esboçado é a idéia de consenso, que terá importância fundamental no séculos seguintes.

 

4.      O príncipe virtuoso.

 

Para descrever a ação do príncipe, Maquiavel usa as expressões italianas virtùs e fortuna. Virtù significa virtude, no sentido grego de força, valor, qualidade de lutador e guerreiro viril. Homens de virtù são homens especiais, capazes de realizar grandes obras e provocar mudanças na história.

Não se trata do príncipe virtuoso no sentido medieval. Enquanto bom e justo segundo os preceitos da moral cristã, mas sim daquele que tem a capacidade de perceber o jogo de forças que caracteriza a política para agir com energia a fim de conquistar e manter o poder. O príncipe de virtù não deve se valer das normas preestabelecidas da moral cristã, pois isso geralmente pode significar a sua ruína.

Implícita nessa afirmação se acha a noção de fortuna, aqui entendida como ocasião, acaso. O príncipe não deve deixar escapar a fortuna, isto é a ocasião. De nada adiantaria um príncipe virtuoso, se não soubesse ser precavido ou ousado, aguardando a ocasião propícia, aproveitando o acaso ou a sorte das circunstâncias, como observador atento do curso da história. No entanto, a fortuna não deve existir sem a virtù. Sob pena  de se transformar em mero oportunismo.


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