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21 de agosto de 2012, 21:28

Chaus qui já mi vôis!


dr. raiz

Num passado nem tão distante assim, nas ruas dessa cidade, um senhor andava a pedir esmolas de porta em porta.

Ele pedia dinheiro não pelo valor da nota, mas pela figura que aparecia na cédula, de forma que cinquenta reais era “uma onça”, dez reais era “uma arara”, cinco reais era “uma garça”, um real era “um beija-flor”.

Na matemática dele uma onça, uma arara e uma garça somavam 65 beija-flores. Cinquenta beija-flores eram iguais a uma onça e duas garças equivaliam a uma arara. E estava certíssimo.

Ele era engraçado, espirituoso e ingênuo ao mesmo tempo e, com seu jeito tranquilo e feliz, conquistou todo mundo. Quem não gostava do “Dotô” Raiz?

Ele se auto-intitulava “doutor”, dizia que a sua caneta de médico era a enxada e chamava os médicos de Patos de “meus colegas”.

Os médicos locais, em tom de brincadeira e de amizade, também o chamavam de “dotô”.

E o “Dotô” Raiz se empolgava com o seu título de “doutor”, e acreditava mesmo nos seus dotes de homem da medicina. Esse “doutor” mendigo acordava muito cedo e ia para o mato, ia parar no sopé do serrote Espinho Branco, onde encontrava as ervas de que necessitava para curar “todos os males do mundo”.

E por isso ele se fez “doutor”. Conhecia empiricamente os segredos da fitoterapia. Ele receitava a raiz certa para cada problema. Para quem tivesse problema de urina ele receitava “pega-pinto”; para “inframação” ele receitava quixabeira; e quem tivesse pedras nos rins ele tinha uma planta conhecida como “quebra-pedra”; para reumatismo ele sugeria agrião; para feridas ele receitava agave; para “bucho inchado” ele receitava macela e para “dor de senhorita” ele sugeria “mão fechada”.

Era um craque no ramo das ervas medicinais.

Dessa forma se transformou numa figura querida em Patos, notadamente no bairro da Brasília, onde conseguia vender suas raízes e ainda receber esmolas das famílias do bairro.

E o que ele fazia com as esmolas que recebia? Ele misturava arroz, feijão e milho em um saco só, e chegando em casa despejava tudo em cima da mesa e pedia para seus irmãos separarem o milho do feijão e do arroz, grão por grão, um por um, numa trabalheira danada.

Ele tinha três irmãos paralíticos e os sustentava com as esmolas que recebia e as ervas que vendia e dizia que misturava todos os grãos para que os seus irmãos paralíticos tivessem algo para se ocupar, pois os três nada tinham a fazer e se ele não misturasse o arroz com o feijão e o milho todos ficariam de braços cruzados o dia todo.

Como se percebe, intuitivamente “Dotô” Raiz sabia da importância da terapia ocupacional.

Quando se despedia de alguém, a frase que ele dizia também se tornou muito conhecida: Chaus qui já mi vôis!

No comércio dessa cidade todos o conheciam, muitos se divertiam com ele, alguns o ajudavam. O empresário Quinquim da Larissa lhe proporcionou uma última comemoração de aniversário, com direito a bolo e velinhas sopradas, isso quando “Dotô” Raiz já estava velho e com a saúde debilitada.         

O nome de batismo dele era Severino Sales de Medeiros, nascido em 1922, no Sítio Gatos, no município de São Mamede. Seus pais eram agricultores.

Ele chegou à Patos em 1950, com 28 anos, e tinha sete irmãos: Francisco Fernandes de Medeiros (ajudante de pedreiro); Lourival Medeiros (o Vavá, paralítico.Cultivava a poesia popular); Luiza Edite de Medeiros (paralítica); João José de Medeiros (trabalhava como auxiliar de serviços gerais e porteiro do antigo hotel Botijinha – era viciado em bebidas); Aderbal (casado, vendia quinquilharias); Terezinha Medeiros (a Tetê, que trabalhava no antigo Armazém Simpatia, era a mais estudada da família e, triste sina, foi atropelada por um carro, ficando paralítica também); e Jovita Moraes de Medeiros (casada).

Todos os seus irmãos paralíticos morreram antes dele, e foi melhor que tenha sido assim, pois se o “Dotô” Raiz tivesse morrido antes, eles não teriam quem cuidasse deles. Dotô” Raiz trabalhou a vida toda para sustentá-los.

Depois da morte de Terezinha, a última a morrer, ele passou a morar com a sobrinha Maria José de Oliveira, no Monte Castelo. Com essa sobrinha ele viveu 12 anos.

“Dotô” Raiz pedia esmolas em ruas programadas e em tempo cronometrado para voltar a tempo de fazer os serviços domésticos: cozinhar, lavar roupas e cuidar dos seus irmãos paralíticos, ou “palaríticos” como ele chamava.

Era muito religioso e não perdia as missas dominicais na catedral. Nos dias 31 do mês de maio não perdia as novenas da igreja do São Sebastião. Quando ouvia missas pelo rádio não se sentava. Ouvia a missa em pé porque achava que se sentar era uma falta de respeito.

Um grande admirador de “Dotô” Raiz foi o saudoso jornalista Mário Soares. Mário, inclusive, chegou a criar o “xarope dotô Raiz”, um lambedor com propriedades medicinais que não sabemos se ele chegou a patentear. Outro grande admirador dele foi o também saudoso doutor Amauri Sátiro, que o considerava um ser “desprovido de qualquer maldade”.

Quando moço o “Dotô” Raiz tivera apenas uma namorada, se apaixonou e pretendia se casar, mas os seus outros irmãos normais casaram primeiro e só restou ele para cuidar dos paralíticos. Ele dizia: “eu amo uma zarolha, mas ela olha para o sábado e vê o domingo”. Quando alguém perguntava o que ele queria dizer com isso, ele explicava que essa namorada mirava apenas o descanso do domingo sem ver as dificuldades que viriam na segunda-feira.

O rei do baião, Luiz Gonzaga, quando esteve em Patos, foi apresentado ao “Dotô” Raiz, que foi logo lhe pedindo uma esmola para os seus “palaríticos”. O artista não acreditou que aquele senhor pedia esmolas para sustentar os próprios irmãos e fez questão de ir conferir pessoalmente se era verdade ou não. Lá chegando ficou tão admirado com o “Dotô” Raiz que lhe dera cinco redes de presente.

Existe a versão de que Luiz Gonzaga também lhe presenteara com uma casa, mas os parentes de “Dotô” Raiz não me confirmaram isso. Esse ato de generosidade em Patos por parte de Luiz Gonzaga se tornou bem conhecido, pois ele também presenteou Pinto do Acordeom com uma sanfona.

“Dotô” Raiz morreu no dia 10 de agosto de 2001, aos 79 anos, talvez dizendo pela última vez a sua conhecida frase “Chaus qui já mi vôis!”

dr. raiz 

 Wandecy Medeiros – wandecymedeiros@gmail.com


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