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05 de fevereiro de 2013, 11:00

De homens e porcos


Livrai-me, oh vida, das instituições da desordem, do arredondar dos quadrúpedes, do estatuto dos bananas, da ata dos burocratas, da histeria dos acéfalos, da loucura dos normais.

Pode deixar que eu enfrento as futricas das muxibas, as críticas dos borra-botas, as mordidas dos banguelos, os oponentes leais, os que não perdem a piada.

Livrai-me, oh vida, dos louvores do cobarde, da diligência dos inertes, das certezas dos incertos, da bondade do maligno, dos contracheques da fé, da inveja que elogia.  

E pode deixar que eu enfrento os doces da vovozinha, os dentes do lobo mau, as letras açucaradas, a gentalha arroz-de-festa, a arrogância dos fiéis.

Afaste-se de mim essa vida cachorra, toda a vida defunta, toda a vida decrépita, essa vida praiana, essa crença nefasta, as certezas do além, esses prêmios do céu, essa moral de vencidos, a juventude caduca, as feias flores de plástico, as lindas roupas da moda, esses rebeldes sem causa e os pontapés da cultura. 

E que não se reduza a fraqueza aos fracos, a frescura aos frescos, a fragrância aos frascos, a elegância aos fraques, a frouxidão aos frouxos.    

“Porque tudo me é dado, mas nem tudo me convém”, já disse o profeta, já disse o guru, já disse o zé-ninguém, já disse o sábio, já disse o mané, já disse o hipócrita, já disse o blasé.   

Essas fraquezas não são dos burgueses, não são dos caducos, não são de quebrados, jamais de senis, dos lábios silentes, dos roncos da fome, das merdas da vida, dos filhos da puta.

O que fica da massa é o indivíduo, o que resulta do trigo é apenas o pão, o pano da camisa já foi algodão, a vinha virou vinho, e o couro do sapato ontem vestia um leão.      

Só fica o sujeito a conjugar todo o verbo, pois só fica o exemplo individual, só ficam as letras, só ficam as tintas, só ficam os acordes, só ficam as pinturas, só ficam os exemplos, e se é que algo fica.

Nem o chorar dos leprosos, nem papais-noéis, nem os licores gasosos abarrotando os tonéis, nem vinte milhões e nem dez mil réis.

Enfrente os cansados, seus talismãs nojentos, a corda dos suicidas, o imã dos azarentos, as eugenias fedidas, o anuviar dos momentos, o orgulho das capitais, os moinhos de vento, os engodos astrais, os feios pensamentos. 

Da vida mais jovem o descuido dos velhos, da vida mais santa o descuido do diabo, da vida mais pobre o descuido dos ricos, da vida mais morta o descuido da vida.

No seio dos jovens, adolescentes alguns, os moços que fumam maços, os moços que fumam moças, os catinguentos que fumam caatinga, os jururus que fumam jurema, os calhordas que fumam cannabis. 

Malucos que fumam a montanha, doidos que fumam os rochedos, loucos que lascam as pedras, pedras que lascam os loucos, loucos lascados na idade da pedra.

E se fumam é só por fumar e se não fumam é só por não fumar, e se bebem é só por beber e se não bebem é só por não beber, e se morrem é só por morrer e se não morrem é só por não morrer.  

Nada mais por transgressão, nada mais por liberdade, e não adianta espernear porque a mentira já matou a verdade, o sítio acabou e hoje tudo é cidade, e quem é comunista pela manhã se torna capitalista à tarde.

Porque hoje ninguém quer derrubar as muralhas da China, questionar o gibi do Pateta, mandar para o espaço a Argentina, de repente o mundo se afrouxou e tudo virou vaselina.  

Porque já se foi o tempo dos bichos, o tempo do boi, a era dos hippies e dos beatnicks, o Sputnik, o sonho dos Beatles, os calhambeques bip bip, está tudo no Google, o mundo coube em um chip.

E hoje agarrados com os seus joysticks, os seus PlayStations, os seus Counter-Strikes, e não sei mais o quê, na vida chiclete, na vida tevê, na vida sem ver, na vida por que, na vida pra quê, na vida sem viver, e por aí vai.     

Outros seguiram o som, outros perderam o tom, alguns seguiram o Tio Sam, outros morderam a maça, e houve quem ficou tantã.

Seguimos a bossa-nova, seguimos a bosta-velha, dançamos o samba, grunhimos com o rock, os gritos do punk, o comodismo do pop, os compassos do funk, a melodia do folk.

 “Seguimos a canção” e a canção nos dominou e a canção nos obrigou a comprar, a gritar, a dançar, a pular, a rezar, a latir, a miar, a grasnar, a berrar, a urrar, a rinchar.  

Melodias que entorpecem toda a marcha, toda a máquina, toda massa, muito mais do que cachaça, muito mais do que ayahuasca, bem mais do que fumaça.

Outros seguiram Karl, outros seguiram Marx; alguns, o salário mínimo; alguns, o salário máximo.

Foices e martelos, flâmulas vermelhas, além dos seus símbolos a cruel verdade: mais fantasia do que realidade, mais sangue do que liberdade.

E gritaram a liberdade e sufocaram a velha ordem, e a nova ordem era sempre um fuzil, era sempre um funil, era muito barbuda, era sempre papuda, “sempre muito dura e jamais com ternura”. 

Para alguns foi trotskismo, para outros, stalinismo, ilhas de castrismo, muralhas do maoísmo, azar e salazarismo e outros mil ismos.

E hoje só nos restam os restos, só nos restam as réstias, só nos restam as frestas, os restos de um sonho, os restos de um ideal, os restos da filosofia, restos do sobrenatural, a vida doente, a vida hospital. 

Ficou a vida tão seca, mágico sem magia, a beleza sem charme, tudo pré-fabricado e a fé sem profecias, as veias entupidas e as cabeças vazias.

Quanta gente vencida pela carne bovina, o bife suculento, a bisteca de porco, o jabá de jumento, também o “chã-de-fora”, também o chã-de-dentro.

Todo mundo obeso, gordos na piscina, as banhas caídas, a vida gelatina, a vida gordura, a vida cretina, a vida geladeira, a vida bovina;

Engolem os bodes, engolem os javalis, mastigam elefantes, se enchem de jabutis, arrotam baleias, defecam bem-te-vis.

Das ações mais caducas o resultar mais cardíaco, do clube esportivo, do clube marxista, do clube burguês, do clube feminista, do clube da fé, do clube machista, do clube que não sabe se é homem ou mulher.

É o caminho mais fácil, não é o caminho do meio, não é o eterno estudar e sim o eterno recreio, é do eterno vazio viver sempre cheio.

Eles trocam elogios, eles trocam tapinhas, eles são tagarelas, conversam abobrinhas, eles trocam as esposas, “eu transo com a sua e você transa com a minha”. 

De lugares-comuns, de lugares clichês, tapete tem de ser persa, uísque tem de ser escocês, o sapato italiano e o perfume francês.

Procure um espelho, olhe o rosto seu, procure sua alma, se já não a vendeu, procure o seu coração, se já não o perdeu, e talvez você descubra que você já morreu.

 

 

Wandecy Medeiros – wandecymedeiros@gmail.com

 


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