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12 de março de 2013, 12:25

Quando os “mortos” matam os vivos


Não é difícil encontrar justificativas para a eclosão de uma guerra.

Uma guerra pode ser motivada por petróleo, por disputas territoriais, preconceitos étnicos, vontade de domínio, enfim, há de sempre existir uma justificativa para que um povo atire pedras e bombas atômicas em outro povo.

Honduras e El Salvador já entraram em guerra por causa de uma partida de futebol, o Irã e o Iraque já brigaram pelo domínio de um rio e, segundo o poeta Homero, os gregos guerrearam durante dez anos com os troianos, por causa de uma mulher, Helena, casada com o rei Menelau, e que fora raptada pelo príncipe troiano, Páris, que se apaixonara por Helena durante uma visita à Esparta. A história culminou naquele famoso cavalo de pau.

Tudo isso dá para se entender. Brigas e guerras sempre têm lá suas justificativas, sejam quais forem. Existe um cordel muito popular no Nordeste, cujo título, “A briga de dois matutos por causa de um jumento”, demonstra, de um jeito jocoso, que até um jumento pode desencadear um moído entre vizinhos. Consta na tradição nordestina que Virgulino Ferreira passou a ser cangaceiro por conta de uma peleja que teve como pano de fundo a disputa por alguns chocalhos de vaca entre a família do futuro cangaceiro Lampião e a família do fazendeiro José Saturnino. Em outro folheto famoso, que inclusive virou tema de filme, “O homem que desafiou o diabo”, o medroso Araújo virou o valente Ojúara, depois que foi pego depilando sua esposa. Ele deu a “mulesta” dos cachorros quando o chamaram de “barbeiro de periquita”.

De forma burlesca estou mostrando como um fato banal pode alterar e transformar uma vida, um povo, um país, mais ou menos como aquela tribo africana teve a rotina alterada por conta de uma garrafa de Coca-Cola, no filme “Os deuses devem estar loucos”. 

Existe uma justificativa, convincente ou não, mas existe, para a fúria de um marido que mete bala na esposa infiel. Não deve ser nada bom levar uma chifrada, não deve ser nada bom saber que a sua querida esposa está “dando” para outro.  E para ser justo com as mulheres, a traição do marido é uma justificativa também para que a esposa traída espere o garanhão dormir para depois cortar o pau dele fora. Digamos que uma mulher que age assim “corta o mal pela raiz”. Só de pensar numa cena dessas tenho vontade de chorar. Um homem viver o resto dos seus dias sem o seu “brinquedo sagrado” deve ser o pior dos infortúnios.

São atitudes extremas, impensadas, “desbaratinadas”, mas que podem ser justificadas. Elas têm um motivo, tem uma relação objetiva de causa e efeito.

Não vou concordar com o ato de se agredir uma criança, mas não vou condenar um pai que, em um acesso de descontrole, dá uma palmada no filho implicante. Descarregar a raiva numa criança não me parece nada muito racional, mas quem disse que a raiva é algo racional? Controlar as emoções, os impulsos, como queria Aristóteles, não é tarefa para todo mundo, mas, por favor, não vamos colocar no mesmo nível de agressividade um pai que dá uma palmada no filho teimoso e outro pai que agride o seu filho com um cinto ou uma corda.

E até o suicídio tem suas justificativas, quer você as aceite ou não. Por que o sujeito tira a própria vida? Por que está depressivo? Por que não encontra mais satisfação nenhuma na vida? Por que vive uma crise existencial? Por que é desprezado pela pessoa que ama? Por que tem vergonha de alguma coisa? Por que está endividado? Por que é fraco? Tudo isso são justificativas e sempre que alguém se mata a gente pergunta logo: “Por que ele fez isso? Ele deixou algum bilhete?”.

O suicídio é uma atitude extrema que a gente se questiona quando acontece, mas as justificativas existem, sejam elas plausíveis ou não. Embora muitas vezes a gente ache que nada justifica o suicídio, é uma atitude precipitada querer sempre ver a outra pessoa a partir dos seus próprios valores. Basta ver que no Japão um estudante se mata quando decepciona o pai e um funcionário se mata quando é pego roubando o patrão. Naquele país o suicídio se dá por motivos impensáveis para uma mente ocidental.

Posso não aceitar as justificativas, mas não posso negar que elas existam e motivam a reação de cada um em relação aos problemas que enfrenta, mas por mais que eu me esforce não consigo encontrar motivações para um sujeito entrar numa escola e assassinar dezenas de crianças. Nenhuma justificativa me parece, nem minimamente, digna de ser sequer ouvida. 

Chamar uma criatura dessas de “doente” é a forma que a nossa limitação de palavras encontra para designá-lo; chamá-la de “monstro” é outra forma de tentar dizer o que parece indizível. E muitos atribuem uma bestialidade dessas ao diabo, sem perceber que dessa forma isentam a criatura de culpa e a responsabilidade passa a ser do demônio.

O problema é que na nossa época o julgamento moral desapareceu. Hoje tudo é culpa dos genes, tudo é culpa de uma disfunção cerebral, de forma que não se julga mais as ações com base na lei, com base numa moral, e quem mata só o fez porque estava com a “glândula pineal” alterada, como quem procura uma forma de isentar o sujeito de culpa.

 

Wandecy Medeiros – wandecymedeiros@gmail.com

 


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