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10 de abril de 2013, 11:51

No tempo em que ainda se pendurava celular na cintura


Quando o telefone celular surgiu era sinal de status pendurá-lo na cintura. O celular era um troço caro e inacessível para a maioria dos brasileiros. E isso foi até um dia desses.

Hoje, pouco tempo depois, nos parece que o celular já existe há uma eternidade. Nem lembramos mais das velhas fichas telefônicas que a gente usava para azucrinar as meninas nos tempos de paquera. Depois vieram os cartões telefônicos e seus colecionadores incorrigíveis. Fichas e cartões – que coisas mais anacrônicas. Orelhão hoje é um bicho em extinção. Nem me lembro mais quando foi a última vez que utilizei um orelhão.

Naquela época o celular era um troço bem maior do que os modelos que temos hoje, mas quem o possuía não se furtava de andar com aquela “rapadura preta” pendurada na cintura. Hoje é sinal de breguice e mau gosto fazer a mesma coisa e eu até evito mostrar aos amigos as minhas fotografias daquela época, fotos em que apareço com um “monstro” pendurado na cintura. Isso foi nos idos de 1997.

Tudo bem, vá lá, era uma coisa daquela época, e eu seguia aquele modismo, pois eu era apenas o embrião do sujeito implicante que me tornei. Eu fiz uma economia danada na época para comprar um telefone celular e quando o adquiri ele já era um “dinossauro tecnológico”, pois o mercado já lançava modelos menores e mais bonitos e os modelos grandões ficaram sem compradores nas vitrines, e daí vieram as liquidações para a queima de estoque e as pessoas com menor poder aquisitivo, como eu, puderam comprar finalmente o seu primeiro celular. Era “o sonho do celular próprio”. Compramos as sobras, os restos, a rapa.

Naquelas circunstâncias era difícil não ser maria-vai-com-as-outras, mas o telefone celular ainda era um bem muito recente e, como sempre acontece, o status momentâneo que ele proporcionou, acelerou a sua popularização. Nos dias de hoje o celular se tornou uma necessidade. E se antes a gente fazia a alguém a pergunta: “Você tem celular?”, hoje perguntamos o seguinte: “Qual o número do seu celular?”. O que mostra que já não cogitamos que alguém não o possua.

Antes de se tornar essa febre, onde quase todo mundo tem mais de um exemplar, o celular era coisa de rico, era coisa de “gente chique”. Do transporte de tração animal para o automóvel sofisticado que temos hoje alguns milênios se passaram, mas uma revolução tecnológica ou até comportamental de hoje ficam arcaicas dentro de muito pouco tempo, numa velocidade absurda. Na questão da tecnologia é só você se lembrar do fax, que foi lançado no mercado como uma grande inovação, mas pouco tempo depois, com o advento do email, ele se tornou uma tecnologia em desuso; e na questão comportamental é só você se lembrar que se tatuar não é mais sinal de contravenção, homem ter cabelo grande não é mais rebeldia e a mulher tomar a iniciativa na paquera não é mais sinal de vulgaridade. Que bom.  

A questão comportamental que o telefone celular provocara faz lembrar a percepção do sociólogo francês Pierre Bourdieu, de que é a lógica da divisão de classes que dita o comportamento reprodutivo, que cria o “habitus” e os “poderes simbólicos” que possibilitam que as gerações atuais perpetuem todos os vícios e erros das gerações anteriores.

O que é convencionado como inerente a uma classe é perpetuado por reprodutores sociais, sendo a educação uma grande “reprodutora”, e a linguagem, bem, para Bourdieu a linguagem é o que existe de mais determinante para esse estado de coisas. 

Quando todo mundo já tinha celular, do empregado ao patrão, do lacaio ao mestre, para uma determinada classe não tinha mais sentido ostentá-lo na cintura e surgiu a discrição de escondê-lo no bolso. O que é comum a todos deixa de ser especial no particular. O sujeito bem sucedido deixou de usar o celular na cintura e o povão, no eterno imitar do “símbolo”, passou a imitá-lo. Se o mercado possibilitou que todo mundo tivesse celular então a ostentação passou a não ter sentido, passou a ser démodé e os ricos não se sentiriam bem exibindo um celular na cintura porque qualquer pobretão também teria condições de fazer o mesmo, mesmo que o celular do rico seja mais caro e com mil outras funções: o celular do rico abre garrafas, tira a pressão arterial, prevê terremotos e serve como guarda-chuva.

Com licença, preciso interromper o raciocínio e o texto. Meu celular está tocando... 

 

 

Wandecy Medeiros – wandecymedeiros@gmail.com

 


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