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17 de maio de 2013, 21:17

Em busca da montanha


Em breve estarei viajando para aquela região que chamam de Terra Santa: Israel. Vou numa missão de paz tentar solucionar aquele impasse entre os judeus e os árabes da Palestina.  

Naquela região que chamam de Terra Santa vou conhecer uma realidade diferente, costumes diferentes, e vou me encontrar com a montanha, a mesma montanha da minha infância, época em que meu pai evangélico lia a Bíblia Sagrada para mim e eu imaginava cada cena que ele citava. Quando Cristo subia no monte eu imaginava o monte, imaginava o “Jesus galã”, fabricado em Hollywood, discursando e “multiplicando peixes e pães”, tudo isso com toda a fantasia que a imaginação infantil permite.

É bem verdade que eu abandonei o “sermão”, mas nunca abandonei a “montanha”. Uma montanha caminha comigo para onde quer que eu vá. Eu me afastei da religião, dos dogmas, dos rituais, e hoje eu não quero nem saber de nada que cheire a “fé institucionalizada” ou coisa parecida, mas, repito, nunca abandonei a “montanha”, e mesmo na minha descrença, sou convicto de que os ensinamentos da seita em que eu fui criado me tornaram um sujeito melhor. Embora questionador e herege, em regra as pessoas me consideram um bom sujeito. E nisso eu concordo com elas: eu sou realmente gente muito boa, mas, por favor, não abuse, porque, se abusar, eu posso lhe dar uma bordoada! E se você for realmente um cristão de verdade vai me oferecer a outra face para que eu possa lhe dar uma nova pancada.

E não quero ser “gente boa” com o intuito de ir para o Céu não. O Paraíso, se existir, deve ser um lugar bastante tedioso. Qualquer lugar que não tenha o bom e velho rock in roll, não me serve. No Céu só se escuta hinos de louvor, justamente o tipo de música que menos me atrai. O Céu precisa se adaptar aos meus gostos musicais.

Quero ser “gente boa” porque esse é o caminho mais apropriado para a melhor fruição da vida em sociedade. Não procurar ser honesto acarreta no homem as consequências que fazem com que a sua própria consciência seja o seu próprio inferno particular. Um leitor mais exigente pode dizer que essa “consciência dolorida” que uma atitude desonesta minha pode provocar em mim só é possível por conta dos padrões cristãos em que fui criado e condicionado a vida toda por viver em um país cristão, mas a religião não pode se arvorar de ser a detentora daquilo que fazemos de bom e de correto. As leis estabelecidas em comunidade, sejam elas iniciadas por um profeta ou por um jurista, contribuem, desde que sejam justas e equânimes, para o melhor ordenamento social e a boa relação entre os rebanhos humanos. 

Hoje, sem nenhuma devoção, crítico da alienação religiosa, crítico da fé que vende e que compra areia do deserto, da fé que vende e que compra água do Rio Jordão, da desavergonhada Teologia da Prosperidade, dos discursos midiáticos com todo o seu rosário de disparates, falações e inalações ocas, de pregadores quase sempre despreparados berrando para uma turba vulnerável e hipnotizada, ainda sou capaz de lembrar que quando eu praticava uma fé, essa fé era sincera, pois eu não brincava de crer, eu não enganava ninguém, e hoje não tenho motivos para duvidar que a fé da maioria não seja igualmente sincera. O que falta para as pessoas é leitura. Uma mente que leu bons livros de psicologia e bons livros de filosofia, jamais vai aceitar essas atitudes mais rasteiras e, para usar uma imagem bíblica, disseminadas por “lobos travestidos de ovelhas”. O povo quer o pregador, não quer o livro, e como dizia Mark Twain: “o homem que não lê bons livros não tem nenhuma vantagem sobre o homem que não saber ler”, ou o “homem que não lê não tem mais méritos do que o que não sabe ler”.

Não é a fé o problema, nunca foi e nem será, não é o “Credo quia absurdum”, não é perceber nossa miséria existencial e colocar um pouco de charme na vida com uma explicação metafísica de tudo, o problema é a alienação, é o fundamentalismo, a atitude bestial de muitos empedernidos e estreitos religiosos que, ao longo dos séculos, vem atravancando o progresso das ideias, o livre pensar, e se muitos deles tivessem hoje a supremacia política as nossas vidas cairiam num obscurantismo similar ao que o Cristianismo já provocou na época da “piedosa” Santa Inquisição, similar também ao que ainda acontece nos estados teocráticos islâmicos. O Iluminismo ainda não venceu por inteiro. Existe ainda quem acredite em magia negra, astrologia, quiromancia, boitatá e outras inutilidades mais. E existem ainda bestas quadradas que colocam sua devoção acima do “laicismo estatal”.           

As religiões são como as pessoas. Cada um de nós tem certa cota de agressividade e de ruindade e todas as grandes religiões têm também a sua cota de ruindade para prestar contas à história.  Nas nações onde as pessoas estudam mais, nas nações cultas, nos países onde o intelecto já venceu, onde o pensamento crítico já esmagou o pensamento mítico, o indiferentismo, se não o ateísmo, é a atitude reinante, de forma que em muitos lugares, principalmente no mundo ocidental, não existe mais espaço para a religião “dar as cartas” e ser a única determinante nas grandes decisões. Que fique com seus dogmas e que cada um acredite no que quiser: “Aqui, nesse estado laico na forma de ser e de pensar, o que cada um acredita é mantido e respeitado, e a lei é assim e é para todos”.  

Estarei em Jerusalém e em várias cidades que marcaram os primórdios do Cristianismo, e não quero enganar ninguém, nem a minha mãe evangélica: não vou proferir uma oração, não vou me emocionar ao pisar em “solo sagrado”. Sei disso por antecipação porque no meu cérebro a conexão da fé em algo místico já foi desfeita. O Espírito Santo não vai querer perder tempo comigo e, para ser honesto, eu também não quero perder tempo com Ele. Dizem que no leito de morte, com a vela na mão, gente como eu muda de opinião, e eu posso até achar que isso faz algum sentido, mas qual o mérito de um moribundo que, vendo a vida se esvair, de repente contraria, em um lampejo, tudo aquilo que defendeu a vida toda?

Minha viagem será cultural, vou para conhecer, vou para vivenciar uma realidade da qual só conheço pelos livros e pelos documentários. Não vou para rezar nem para “me encontrar comigo mesmo”. Eu não preciso sair do meu país para me encontrar comigo mesmo, pois eu sempre estou por perto, sempre estou comigo, sempre estou ao meu alcance. Se eu quisesse ir rezar eu não iria “atravessar o mundo” para fazer isso. Para isso bastava dobrar os joelhos, aqui mesmo na Paraíba, na minha casa, no meu quarto. Se os cristãos dizem que “Deus está em todo lugar”, então eu não acredito que Ele dará mais crédito a uma oração feita em Jerusalém do que daria a uma oração feita em Puxinanã.  

Já me pediram até para trazer um pouco de terra de Israel. Querem guardar um pouco de pó daquela região que chamam de “Terra Santa”. Estou pensando em encher a minha mala de terra e, na volta, vender toda a terra em saquinhos de gelado, a dez reais cada “picolé de terra”. Só assim eu termino de quitar as prestações da viagem. Brincadeiras à parte, quando eu voltar à minha Patos, escreverei aqui para os meus dois leitores as minhas impressões sobre tudo o que vi, tudo o que eu senti, e espero poder ver as montanhas da minha infância, as montanhas que jamais saíram do lugar.

 

Wandecy Medeiros – wandecymedeiros@gmail.com

 


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