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10 de junho de 2013, 14:38

Nem Leite nem Mel


Bota chapéu, tira chapéu

Eu estive nas principais cidades israelenses, e visitei muitos lugares bíblicos, lugares que os religiosos consideram sagrados, pois se trata de terra pisada por mártires e profetas, inclusive aquele a quem consideram o Filho de Deus. Bilhões de pessoas acreditam nisso, e isso tornou o cristianismo o maior de todos os fenômenos.      

Os templos católicos israelenses não têm, nem de longe, a imponência das belas igrejas européias, mas isso é compreensível: ali o cristianismo é muito menos influente do que o judaísmo e o islamismo.

Se a tradição diz que Paulo era o apóstolo dos gentios e Pedro era o apóstolo dos judeus, então não é exagero dizer que, em se tratando de divulgação e alcance, Paulo teve infinitamente mais sucesso do que Pedro em sua missão. Um argentino que eu conheci em Tel Aviv, e que mora em Israel há trinta anos, me disse que “os judeus não dão muita bola para Jesus”. De qualquer forma isso não é novidade para ninguém. Sabemos que o judaísmo tem nos cinco primeiros livros da Bíblia, que eles chamam de Torá, e nós o chamamos de Pentateuco, a base de suas leis e de sua fé, e não no Novo Testamento.

Por conta das questões internas entre judeus e árabes, não pude entrar em uma mesquita, mas entrei em algumas sinagogas, visitei algumas igrejas. Quando eu entrava na sinagoga o judeu pedia para eu colocar um chapéu porque, segundo ele, é um desrespeito a Deus um homem entrar no templo com a cabeça descoberta; no entanto quando eu entrava numa igreja o cristão exigia que eu descobrisse a cabeça, porque, segundo ele, é um desrespeito à igreja e ao próprio Deus, entrar no templo com a cabeça coberta.

Deus, por favor, me esclareça de uma vez por todas como o Senhor prefere: com chapéu ou sem chapéu?

Compras e rezas

Mesmo em Nazaré, cidade onde Jesus Cristo viveu, os cristãos passam mais tempo nas lojas do que nas igrejas. Saem das compras para rezar e voltam da reza para comprar. E não precisam ir muito longe não: o templo da compra quase sempre fica colado ao templo da fé. 

Ouvi dizer que naquela região, há muitos anos, um revolucionário entrou certa vez em um templo e expulsou os vendilhões que lá comercializavam seus produtos. 

É perceptível que para a esmagadora maioria das pessoas não existe nenhuma relação mais profunda ou subjetiva ao se visitar os lugares que foram determinantes para que essas mesmas pessoas encontrassem, segundo elas mesmas dizem, “o caminho, a verdade e a vida”. O que se percebe são meras manifestações externas. Não se percebe a profundidade silenciosa, não se encontra os tesouros do coração, e logo notamos que as pessoas, ao chegarem à Terra Santa, continuam ansiosas de saber como foi a novela de ontem e o resultado do jogo de domingo.

O homem anda o mundo todo, procura a fé e a “verdade”, mas não consegue fugir de si mesmo. Ele chega ao oceano e se lembra da sua piscina; chega à Muralha da China e pensa no seu quintal; contempla os castelos reais, mas se enclausura na fantasia dos seus castelos de areia.  

Eu não tenho, efetivamente, como provar essa ausência de “profundeza”, já que é uma experiência de si para si, uma relação de cabeça e coração, mas a profundidade interna transparece para o lado de fora, seja no olhar, seja nas palavras, seja no silêncio eloquente, seja até na inocência, mas nada que possa transcender o nosso mísero estado me foi apresentado nesses rituais de fé e de compras. Talvez eu esteja pedindo demais, afinal a religião é a metafísica fácil das almas menos reflexivas e filosóficas.         

Querem a foto da “Terra Santa”, não querem o sentimento; querem o santo de gesso, querem a reza já pronta, a manifestação fácil que o olho vê, mas, excluído isso, pouco fica, pouco sobra, e se percebe que, mesmo no Santo Sepulcro, o cristão fura fila, discute um com o outro, empurra uns aos outros, de forma que a maioria daqueles fiéis não tem uma relação sincera com a sua fé, com os preceitos da religião que ele diz que abraçou.  Nada para dentro, nenhuma meiguice singela, nenhuma beleza de alma. É só o ritual externo que vale. É só o acender velas que conta!

Eu até me lembro de um trecho do Novo Testamento onde Jesus diz “não façam como aqueles que desfiguram o rosto com o fim de parecer aos homens que jejuam”. Essa frase é uma crítica forte à manifestação meramente externa, nada diferente do que acontece hoje: os fiéis visitam os lugares por onde andou aquele a quem consideram o próprio Deus e acabam fazendo toda sorte de estultícia para levar alguma vantagem em alguma coisa.     

Só querem o ritual, o rito puro e simples, a manifestação quase que mecânica. Grande foi o reformista Lutero que, ao subir de joelhos a Escada Santa, no Pretório de Pilatos, rezando sem parar, acabou se “tocando” daquele ritual meramente externo e desnecessário. “O justo vive da fé”, foi essa frase bíblica que Lutero se lembrou e o fez desistir de descascar os joelhos subindo as escadas. Você, que vive com sinceridade a sua fé, se sinta excluído dessas minhas observações. Não estou generalizando.      

Na igreja da Natividade, em Belém, na Palestina, onde a tradição diz que foi onde o Messias nasceu, por pouco eu não presenciei uma briga entre dois cristãos que atravessaram o mundo para conhecerem a Terra Santa. Um brasileiro e um norte-americano quase saíram no braço por causa de uma fugaz questão de “espaço”. E isso, logo ali, próximo aquela Estrela de Prata onde o cristão põe a mão para tocar, segundo reza a tradição, o “exato local” onde Jesus nasceu.  

Esse brasileiro, conversando comigo depois, estava muito sentido, dizendo que jamais imaginaria quase chegar às “vias de fato” em um lugar que tanto representa para a sua fé. Ele disse que foi provocado e não resistiu à tentação de revidar a provocação.     

Pois é. Um sábio disse certa vez: “sou homem e nada do que é humano me é estranho”. 

 

Homens e feras

 

Estive lá nas ruínas da Cesárea, no velho teatro de Herodes, e vi a velha arena romana aos pedaços, e não pude deixar de imaginar o caminho percorrido pelo homem, onde o próprio palco, onde se davam as lutas ferozes, nos possibilita enxergar essa trilha evolutiva.

O caminho do homem é a domesticação gradativa da fera que nele ainda habita e ainda esperneia. Essa fera é o monstro que precisamos acalmar para que a nossa vida funcione bem em sociedade.

No começo de tudo, naquelas velhas arenas, animais se confrontavam com animais, para o deleite de todos. O animal vencedor sangrava; o animal derrotado morria.

Posteriormente o confronto passou a ser entre homens e feras. Ou o homem matava a fera ou a fera matava o homem. Homens foram mortos por leões; leões foram mortos por homens. O sangue que jorrava era motivo de grande entusiasmo por parte da plateia.

E só depois, bem depois, a luta passou a ser entre homens e homens. Matava-se para não morrer. E tudo isso se dava para o deleite de reis, nobres e outros “bichos”. O vencedor assassinava o seu oponente. O cheiro de sangue cobria os espaços.

Hoje, uma luta de boxe ou de qualquer outra modalidade esportiva, por mais agressiva e selvagem que às vezes parece ser, é a inevitável evolução daquelas velhas arenas onde tantos bichos e homens foram mortos apenas para a satisfação bestial do rei dos animais: o homem.

As brigam continuam, as arenas modernas existem, a fera ainda habita dentro de nós, mas não precisamos mais matar nossos rivais e nem precisamos mais degolar o pescoço de ninguém para a satisfação de uma plateia ensandecida.       

 

A estética da fé

 

Eu me irritei com o costume das pessoas de irem para Israel para visitar os lugares que elas consideram santos e perderem a maior parte do tempo comprando, comprando e comprando. Não querem conhecer a cultura local, pois procuram lá as mesmas coisas que podem ser encontradas aqui; não querem conhecer a culinária local, pois buscam se alimentar das mesmas coisas que já comem aqui; enfim: muito tolo sou eu que achava que as pessoas buscam o conhecimento com essas viagens. Não. Mil vezes não: a maioria busca a vaidade, o orgulho comezinho de se dizer que esteve em outro país.   

Compram roupas, compram souvenires, compram tudo, e às vezes compram até coisas que encontramos com muita facilidade no comércio local. O sujeito atravessa o mundo e compra em Israel uma camisa que encontramos logo ali na esquina. Estive em Portugal também e é a mesmíssima coisa: comprar, comprar e comprar. Eu sempre tive uma admiração e uma curiosidade pelos “três pastorinhos de Fátima”, e acho bonita aquela história, principalmente porque envolve crianças. Minha admiração é estética, os motivos da fé são bonitos, uma paróquia pequena no meio de uma cidadezinha tem um forte apelo estético em mim, mas a ideia de se usar essa força gigante e inspiradora no homem apenas para fazer girar a roda sem escrúpulos do comércio torna tudo isso algo meio que desagradável, intragável até.      

A globalização vem devastando tudo, o mundo caminha para uma unilateralidade que mata o espírito e faz o homem não ser muito diferente de uma máquina cheia de botões. Aperte o botão para comer e ele vai ao Mac Donald´s; aperte o botão para comprar e ele vai a um shopping cheio de produtos industriais, nada com valor artesanal, ou sentido estético. Hoje nós estamos mais ricos para exercermos a nossa pobreza. É isso. 

Tudo bem, vá lá, “o que não me mata me fortalece”, já dizia um grande pensador, e eu tive que fazer realmente um exercício de paciência para não me estressar. Eu estava em Israel e, em se tratando de paciência, bastava me lembrar do profeta Jô. Essa chateação não era gratuita não. Eu me chateava porque estava em grupo e sempre tinha que esperar o meu grupo comprar, comprar e comprar. Tive que me “desgarrar” do grupo em alguns momentos para vivenciar outras experiências.

De qualquer forma eu tive a minha experiência, tive o meu momento, tirei dúvidas sobre tudo o que vi com uma judia-alemã-brasileira com quem conversei bastante, e posso dizer que realmente essa viagem me valeu a pena.  

Eu acredito que o mais inteligente de todos os lazeres é a leitura e o segundo é viajar, conhecer povos e culturas diferentes. Os aviões tornaram o mundo pequeno, as viagens estão com preços bem acessíveis, então, a China que me aguarde, a Grécia que me aguarde, o Egito que me aguarde.

 

Wandecy Medeiros – wandecymedeiros@gmail.com

 


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