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27 de junho de 2013, 10:39

Eu estou com medo de morrer


João Balula era um pessoense que de vez em quando vinha à nossa cidade para participar de atividades culturais. Ele era pobre, negro e homossexual assumido, e era engajado na defesa dos direitos dos negros, dos gays e da “cultura dos porões”, da “cultura dos becos”, por assim dizer.  

João Balula não era daqui, mas se engajou na construção de um teatro em Patos. Eu mesmo participei de várias reuniões em que ele estava presente, trazido pelo professor Joelson Oliveira, o “China”, proprietário do grupo teatral “Fama”, e que hoje mora na Região Norte.

João Balula era HIV positivo e morreu em 2008, sem ver o teatro de Patos se tornar realidade.

José de Oliveira Pio foi um dos maiores líderes que a cidade de Patos já teve em toda a sua história. Sabia falar e sabia cobrar. Junto com José Gonçalves e Jozivan Antero, ele compõe a tríade dos nomes mais representativos dos movimentos populares em nossa cidade. “Pio”, como todos o chamavam, participava de tudo, onde houvesse uma luta popular ele estaria de dentro, e se engajou fortemente na construção do nosso teatro. Eu participei de muitas reuniões em que ele estava presente.

José de Oliveira Pio morreu tragicamente no ano 2000. Ele estava no auditório de um hotel aqui em Patos participando de um evento e o teto desabou sobre ele. Pio morreu, e o teatro ainda não foi construído.

Amaury de Carvalho não era muito de conversar. Preferia cantar. Foi ele quem compôs o hino de Patos, o “Patos te amo Patos”. A cidade conhece pelo menos quatro músicas na voz dele: o hino de Patos, o hino do Nacional, o hino do Esporte e o hino da padroeira de nossa cidade.

Amaury de Carvalho participava das reuniões pela construção de um teatro em Patos. Não falava quase nada, praticamente só ouvia, mas sempre estava presente. Isso foi lá pelos idos de 1996.

Amaury de Carvalho morreu. Foi vencido pelo tempo e pelo álcool. E o teatro ainda não se tornou realidade.

Nilson Batista era cantor e músico, e era muito querido em Patos. Dedilhava bem um violão, apreciava a música e o cinema, gostava de papear e tinha muitos amigos. Nilsão, como era mais conhecido, lutou pela construção do nosso tão esperado teatro. Eu presenciei Nilsão em muitas reuniões. Ele também não falava muito, mas desejava ardentemente o teatro que, segundo ele, iria movimentar a cidade culturalmente.

Nilson Batista sofreu o indizível com um câncer, e acabou morrendo. Morreu, e o teatro ainda não foi construído.

Mário Soares era jornalista e muito ligado à área cultural. Promovia quadrilhas juninas e foi responsável por conseguir unir a imprensa de Patos, na criação da AISP (Associação de Imprensa do Sertão Paraibano). Era religioso e devoto da Menina Francisca, que ele considerava uma verdadeira santa.

Mário Soares lutou pela construção do teatro municipal. Participava das reuniões e opinava. Eu me lembro dele em muitas reuniões na Fundação Ernani Sátyro.

Mário Soares morreu. Sentiu uma forte dor no peito e faleceu no prédio da Biblioteca Municipal de Patos. Na época ele era gerente de Cultura do município. Mário Soares morreu, mas o teatro, bem, o teatro ainda não foi construído.

Wandecy Medeiros, à frente da Secretaria Executiva de Cultura, não pôde realizar muitas coisas que ele sonhava para a cultura local, pois era a pasta mais “desdinheirada” do governo. A pasta não tinha dotação orçamentária e dependia do gabinete do prefeito para tudo. Ele não tinha muita autonomia não. O atual secretário, José Romildo, felizmente, está tendo mais espaço e mais condições do que Wandecy Medeiros teve, embora saibamos que os governos nunca dão à cultura o espaço que ela merece. Raros são os políticos que têm realmente uma preocupação sincera com a cultura.     

Wandecy Medeiros participou de todo o projeto do teatro, esteve em muitas reuniões, perturbou engenheiros e arquitetos, e, quando saiu do governo, a construção do teatro já estava prestes a se tornar uma realidade. E isso lhe aliviou um pouco a alma, pois ele sabe que quando esse teatro se tornar uma realidade terá contribuído com algum “tijolinho”.

Dizem que agora o teatro vai sair e que do atual governo não passa. E Wandecy torce por isso, sonha com isso, mas espera não morrer antes da inauguração.

 

Wandecy Medeiros – wandecymedeiros@gmail.com  

 


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