comentários  

30 de junho de 2013, 10:39

O disco de samba de Bob Dylan


Stanley Kubrick poderia fazer qualquer coisa, até mesmo um filmeco da Xuxa, que eu iria querer assistir. Depois eu diria se gostei ou não gostei, mas sendo de Kubrick, eu me daria à obrigação de ver, porque admiro o trabalho dele e quero ver tudo o que ele produziu.

É assim a nossa relação com certos artistas. Se você gosta de Bob Dylan, e detesta samba, e Bob Dylan grava um disco de samba, daí eu duvido que você não vá querer ouvir o disco todinho. Depois você se posiciona se gostou de Bob Dylan cantando samba ou não.

Foi assim que eu agi quando o cantor Zé Ramalho gravou um disco com músicas dos Beatles. Eu gosto das músicas de Zé Ramalho e aprecio ainda mais as músicas dos Beatles, mas detestei o CD inteiro. Não pretendo escutá-lo nunca mais. “A Day in the life”, uma das músicas do álbum “Sargent Peppers Lonely Hearts Club Band, que é simplesmente uma obra-prima, na voz de Zé Ramalho ficou forçada, chata pra cacete. “Golden Slumbers” e “Carry That Weight” são duas das mais lindas músicas da dupla Lennon e McCartney e as duas canções precisam ser escutadas juntas, pois, acredite: os Beatles conseguiram a proeza de fazer uma música ficar dependente da outra, de forma que quem escuta só uma delas fica com a sensação de que faltou alguma coisa. Zé Ramalho gravou as duas músicas e eu estou puto da vida com ele: ficou muito ruim, péssimo, uma merda mesmo.   

Eu tenho horror a livros de auto-ajuda. Tenho tanta aversão a esse tipo de literatura que me dou ao direito de dizer o seguinte: “não li e não gostei”. É uma postura meio arrogante, eu sei, mas eu não preciso comer uma padaria inteira para saber que determinado pão não me agrada. Li duas obras de Paulo Coelho, “Maktub” e “O Alquimista” e isso foi o bastante para que eu possa dizer  que nada do que ele escrever vai me provocar qualquer tipo de interesse. E não preciso mais criticá-lo a cada novo livro dele não. Vou procurar descobrir outros autores, e não ficar martelando em um autor que não me provoca nenhum interesse.

O que me parece às vezes é que não nos apegamos a uma manifestação artística apenas, nos apegamos sim a um artista especificamente, e esse artista, para nós, às vezes fica até maior do que a própria arte que ele produz. Isso é um erro, mas parece que não temos como fugir disso. Eu gosto dos artigos de Bráulio Tavares e, se ele escreve qualquer texto em qualquer jornal, eu já fico doido para ler porque já tenho até certeza de que é bom, sem ao menos saber do que se trata. É uma aprovação preconcebida mesmo.  

No caso de Paulo Coelho, se eu fosse levado a ler outra obra dele, eu já partiria com um “pré conceito” imenso, pois em mim já está formada a ideia de que o tipo de coisa que ele produz em nada me atrai. É uma condenação preconcebida também. E em ambos os casos eu tenho certeza de que devo estar errado, mas me digam aí como é que eu posso mudar isso.

Nas artes plásticas sempre me senti atraído pelas pinturas de Goya. É automático: eu vejo uma obra de Goya e já vou gostando logo de cara, sem nenhuma reflexão, e isso até me faz lembrar daquele aforismo de Schopenhauer: “Não gostamos de uma coisa porque encontramos razões para gostar. Primeiro nós gostamos, e depois procuramos as razões para justificar esse gosto”.

 

Wandecy Medeiros – wandecymedeiros@gmail.com

 


Publicidade
Publicidade

Comentários

O utilizador reconhece e aceita que o PATOSONLINE.COM, apesar de atento ao conteúdo editorial deste espaço, não exerce nem pode exercer controle sobre todas as mensagens. O PATOSONLINE não se responsabiliza pelo conteúdo de mensagens publicadas no mural ou comentários de postagens.