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21 de agosto de 2015, 17:18

Os bem-amados


Não sei em que escola de jornalismo eles se formaram. Imagino apenas que, a rigor, não passaram por escola alguma e somam, para o exercício do oficio, algum conhecimento técnico da comunicação “interpessoal” mediatizada, desconhecimento geral das minudências relativas ao ser humano e sua organização histórico-social e, ademais, uma militância política unicamente movida por interesses pessoais e, na maioria das vezes, com uma leve essência de estelionato midiático.

Tracei, grosseiramente, um retrato dantesco do espécime que mais prolifera em nosso jornalismo atualmente. Em alguns meios, sobretudo super  populares como o rádio, são eles que nivelam por baixo a qualidade das emissões. Com seu comportamento, a um tempo intencional e oportunista, contribuem para a desinformação geral e, sobretudo, para a formação de opiniões gerais, necessariamente descontextualizadas, retrógadas, conservadoras e de baixa análise sócio-estrutural e de conjuntura.   

Na real, creio que eles sempre existiram, afinal, na história da comunicação e do jornalismo especificamente, quem tem um olho “crítico” e uma voz altissonante sempre se passou por aglutinador dos interesses maiores da maioria sem voz. Uma subespécie de paladinos da “razão” pública. Em alguns momentos, seja ocupando o centro das atenções, seja escapando entre os guetos infectos da desimportância, os “comunicadores” de voz possante e ideias enviesadas sempre estiveram presentes na cena social.

O jornalismo contemporâneo, do impresso ao televisivo, foi concebido para ser produzido por grupos empresariais que pudessem manter, minimamente, equipes altamente especializadas, dedicadas à composição do produto noticia. Equipes que entendessem o produto em todas as suas nuanças: técnica, ética, estética e comercial. E, também, pelo significado e importância político-social de sua emissão.

Criou-se, em torno da notícia, um campo intelectual amplo que discutia da captação e da formatação ao plano gerencial e aos limites da penetração social dos conteúdos. Essa é uma função político-empresarial com certeza, pois liga as estratégias do negócio comunicação às bases de negociação e influencia que a noticia pode adquirir. Vem dessa base estruturada, especializada, sutilmente política e politizante, a expressão do jornalismo como um quarto poder.

Um quarto poder exercido não pelo grito banal, mas pela coerência dos argumentos, pela seriedade na apuração, pela coragem de abrir caixas-pretas e desafiar os autoritarismos de toda ordem, pela análise diuturna e balizada da conjuntura política, da noção exata dos danos irreparáveis de uma emissão irresponsável. Talvez seja este rosário uma quimera e apareça um dedo pronto a apontar a irrealidade dessas premissas e a afirmar que a comunicação pública sempre foi e será um lamaçal pronto a expirar perdigotos por todos os lados e contaminar o tecido social.

Talvez, o impacto das “notícias-mentira”, sobrepujem os idealismos, acostumem corações e mentes ao conformismo das palavras esvaziadas de sentidos mais profundos e enterrem de vez a ideia de um jornalismo mais sério e comprometido com a emancipação do homem e da coletividade. É esse, enfim, o caminho que tomamos com a falência da organização da produção jornalística, o individualismo laboral dos âncoras histriônicos das rádios e tvs populares e, finalmente, com a infestação do pior da “política” no editorial vigente.

Limitada, interesseira, controversa, hedionda, alarmista são apenas alguns dos adjetivos que se pode colar, qual decalque na produção jornalística de maior ibope no atual momento. É ela, profusa, atabalhoada, porém, precisamente, que orienta os comportamentos mais torpes por parte dos profissionais e promove lacunas contextuais nos conteúdos disseminados por aí. Melhor, contribui para criar maiores contingentes de gente desinformada e, pior, conformada e remotamente guiada.

por Edson de França

 

 


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