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19 de julho de 2016, 06:49

Como me tornei professor de Português no Colégio Estadual de Patos


Há alguns anos, colegas meus Auditores Fiscais do Ministério do Trabalho com alguns Juízes do Trabalho do TRT, planejaram montar um curso de preparação para concursos em João Pessoa, e o Dr. Normando Salomão Leitão, juiz do Trabalho, sugeriu meu nome, para surpresa de colegas meus, como professor de Português. Diante da estranheza daqueles, Normando disse que aprendeu Português como aluno meu no Colégio Estadual de Patos. É uma história que começou há mais de cinquenta anos.

 Em fins de 1960 (por coincidência num 24 de setembro, dia da Padroeira, Nossa Senhora da Guia) eu saí do Seminário de Cajazeiras e “voltei para casa”. Passei uns dias ajudando Padre Levi, meu vigário, na Matriz de Santo Antônio, mas, como não pensava mais em voltar para o seminário, resolvi procurar outro ”meio de vida”. Passei uns dias trabalhando no Foto Patos, de Sebastião Ramos, mas o serviço que me deram era mntar molduras para espelhos e quadros de santos, trabalho meramente manual, que não me agradou. Meu pai era balconista do Armazém do Leão, armazém de estivas que à época funcionava em frente à Prefeitura, e eu comecei a “aparecer por lá”, ajudando a um e outro, até que fui “adotado” por Inácio do Leão, proprietário do estabelecimento. Já trabalhavam lá dois rapazes pouco mais velhos do que eu, Diraldo e Everaldo, filhos de um antigo funcionário que falecera. Meu pai fora contratado para substituí-lo e eu fui fazer o mesmo serviço que “os meninos” faziam. Ajudávamos no balcão, fazíamos pequenas entregas em bicicleta, íamos ao Banco fazer depósitos e pagamentos, acompanhávamos Zé do Leão, que dirigia uma camioneta (que tinha “um leãozinho na porta”) nas entregas. Zé do Leão era irmão do grande Chico Bocão, que à época ainda não era vereador. Como José não sabia ler, a gente ia com ele e um “chapeado” fazer as entregas. Quando chegávamos ao estabelecimento, nós íamos para cima da camioneta e, enquanto líamos as “notas de entregas”, íamos entregando as mercadorias mais “maneiras” para Inácio Só ou João Só, que levavam até o balcão da mercearia. José ajudava o “chapeado” a tirar os sacos de açúcar, arroz, feijão, milho ou café, latas de querosene ou volumes maiores, como engradados de Pitu, Serra Grande ou Paturi, as cachaças melhores da época.

Eu trabalhava das sete horas até o fechamento do armazém no final da tarde, com umas duas horas para ir almoçar. Estudava de noite, tendo cursado o primeiro ano cientifico em 1961 e 1962, pois adoecera no final de 1961 e perdera as provas finais. Em 1963, eu fazia o segundo ano científico. Os professores de Matemática e Física, geralmente, eram engenheiros do DNER, do DER ou do DNOCS. No segundo semestre daquele ano um destes professores passou a dar aula às cinco horas da tarde, pois viajava depois disso. Eu passei a sair um pouco antes das cinco horas da tarde para assistir a aula. Havia combinado isso com “seu” Pedro Virgínio, que era o gerente na época, mas entrou um gerente novo e disse que não permitia que eu saísse antes dos outros. Perdi a aula no primeiro dia, mas combinei com meu pai, que dava muito valor aos estudos, que eu não voltaria mais a trabalhar para não perder o ano. O gerente novo foi meu amigo até morrer.

No Colégio comentei com os colegas que deixara de trabalhar e contei o motivo. Alguns dias depois, um destes colegas, que era inspetor de alunos e depois de tornou professor de Educação Física e foi vice-diretor, José Luiz Neto, foi lá em casa num dia de manhã e disse que Padre Vieira queria falar comigo. No caminho ele me disse que Padre Vieira estava precisando de um professor de Português para os alunos do primário e que ele tinha indicado meu nome. Fui à diretoria, onde Padre Vieira me fez o convite. “Topei a parada” e me mandaram dar aulas no terceiro ano primário. A turma era de garotos na faixa dos dez anos, dos quais me lembro de Paulo de Tarso Menezes, de família protestante, o que lhe granjeou o apelido, pelo qual muitos até hoje o chamam, apesar de ter sido diretor eleito diretor do colégio por vários anos: Paulo Bode. É meu amigo até hoje. Outros de que lembro eram George e Gilberto Pimentel, filhos de João Germano e dona Glorinha Pimentel. Por ironia do destino, Gilberto e eu somos avós de Júlia e Netinho. Gilberto morreu prematuramente e George, até onde sei, ainda é vivo. 

Demorei pouco tempo, como professor do terceiro ano. Logo me promoveram a professor do “exame de admissão”. Uma das turmas que me deram, entretanto, era “barra pesada”. Quase todos mais velhos do que eu, me davam um trabalho danado: entre outras figuras das quais me lembro, Branco de Gerson, Ivaldo Silva, Zacarias de Evaristo, Larrimê Silva. Todos se tornaram cidadãos decentes. As outras turmas me davam menos trabalho. Depois de algum tempo, sabendo do trabalho que me dava aquela turma mais velha, Padre Vieira me chamou e disse: “Sei que os meninos desta turma lhe dão muito trabalho. É da idade. Um dos moleques piores que tive por aqui foi Olavo Nóbrega e hoje é um homem de vergonha”. E olhe que Olavo era seu adversário político, mas Padre Vieira lhe fez justiça. Entregou a turma “da pesada” a Roosevelt Vita e me deu uma turma feminina. Mas tinha umas meninas que não ficavam atrás da turma de que me substituíram: Adeilda Dias (irmã de Adilton), Guia Teódulo, entre outras. Mas estas pelo menos obedeciam com mais facilidade. Em 1964, continuei a ensinar Português aos que se preparavam para o “exame de admissão”. Era um quinto ano primário que preparava para o exame de admissão ao curso ginasial. Até aí, eu ensinava no Diocesano que funcionava no mesmo prédio do Colégio Estadual. O Diocesano pela manhã, atendia ao curso primário, do primeiro ao quinto ano (o exame de admissão). À tarde funcionava o Estadual, oferecendo o primeiro grau (1ª a 4ª série) e á noite, também pelo Estadual, funcionavam as três séries do curso científico, onde concluí o segundo grau em 1964. Em 1964 ou 1965, Padre Vieira criou uma turma de quinto ano primário (exame de admissão) noturno para aqueles que trabalhavam durante o dia. Neste curso, tive alunos bem mais velhos do que eu (funcionários da Rede Ferroviária). Também foram meus alunos alguns jogadores do Nacional, como Perequeté, Bastinho, Canário e Teixeirinha. Estes, apesar de adultos, não me davam trabalho. Eram muitos interessados. O “grande Bastinho” depois virou professor de Educação Física, preparador físico, treinador e dirigente esportivo e foi um dos baluartes do Nacional, onde formou uma grande zaga com Petrônio, Ribamar e Perequeté.

Em 1965, Padre Vieira resolveu me promover para ensinar no Estadual. Fui contratado pelo Estado para ensinar Português, na primeira série ginasial. Ali ensinei até abril de 1967, quando deixei de ensinar para ir assumir um emprego no Banco do Brasil, na agência de Piancó. Das turmas em que ensinei, saíram muitos doutores que estão espalhados por este Brasil afora. Nem vou tentar enumerá-los para não cometer injustiças. Tem até quem enveredou pela política, como Dr. Júlio Lopes, ex-prefeito de Olho Dágua; Dr. Rui Pontes, ex-prefeito de Santa Terezinha; Dr. Renê Caroca, atual prefeito de São José de Espinharas. Enquanto ensinava no Estadual, continuei a dar aulas no Diocesano, até nos primeiros meses de 1967, quando este funcionou no novo prédio no Belo Horizonte. Nestes primeiros meses do Diocesano novo, eu ajudava na disciplina, dava aulas e era secretário da diretoria comandada por Padre Raimundo Luciano Correia Lima de Menezes e que tinha como tesoureiro José Nestor de Alcântara Gondim.  Deixei o Diocesano também quando fui trabalhar em Piancó.

Depois que entrei no Banco, tive uma outra experiência como professor. Em setembro de 1967, fui procurado na agência de Piancó por Dr. Newton Soares de Oliveira, que era promotor público e dirigia o Colégio Dom Mata, na cidade de Coremas. Ele estava precisando de um professor de Português, já que o Dr. Hugo, o professor anterior, havia apoiado uma greve dos alunos do colégio e a direção o havia dispensado. Em Patos, Dr. Newton entrou em contato com o Dr. Manoel Messias, diretor do Colégio Estadual, pedindo-lhe uma indicação de um professor de Português. Dr. Messias disse-lhe que dificilmente um professor ia querer se deslocar de Patos para dar aula em Coremas, mas informou-lhe que um antigo professor do Estadual estava trabalhando no Banco do Brasil de Piancó e talvez “topasse” dar aulas em Coremas, muito mais próximo do que Patos. Aceitei o convite e me dispus a dar aulas na Escola, onde já davam aula meus colegas de Banco, Wisses Pinheiro Bezerra e José Santana Pereira. Passei a viajar todo final de tarde, depois do expediente, para dar aulas em Coremas. Eram trinta e seis quilômetros de estrada de terra, setenta e dois para ir e vir, percorridos em um jipe. A fadiga era tão grande que, no retorno, eu conseguia dormir sentado no banco traseiro do jipe. Ensinei no Dom Mata até agosto de 1970, quando fui transferido para a agência do Banco do Brasil em Patos. Coremas é uma terra de mulheres bonitas e tive algumas “paqueras” entre as alunas do Colégio. Apesar de não ser dos mais bonitos, afinal bancário era um partido muito disputado. Uma destas “paqueras” era uma aluna minha, a quem meu colega Wisses apelidou de “Menina da Fila”. Dera-lhe, entre nós, este apelido por que eu a surpreendera, durante uma prova minha, tentando “colar”. As anotações tinham sido feitas pouco acima do joelho, fazendo com que mostrasse, ao tentar ler a “fila”, o começo de umas belíssimas coxas. O quase namoro veio depois disso e por pouco não desisti da noiva que tinha em Piancó. Em Coremas fiz muitos amigos que o tempo foi afastando, restando alguns poucos deles que depois se radicaram em Patos, inclusive a “Menina da Fila”, hoje muito bem casada e “avó de netos”.  Ex-alunos meus em Coremas, ostentam seus diplomas por este Brasil afora.

Depois que voltei para Patos, transferido de Piancó para a agência do Banco do Brasil de Patos, em 1972, tive oportunidade de voltar a ensinar. Ribamar de Brito, colega meu no Banco, era também professor de Português e ensinava numa espécie de filial do Estadual que funcionava no novo prédio da Escola Rio Branco, na rua Floriano Peixoto. Era “o Califórnia”, que depois se transferiu para o bairro do Salgadinho, com a criação da Escola Capitão Manoel Gomes. O grande zagueiro do Nacional foi convocado pela gerência do Banco para uma espécie de “tarefa”, através da qual iria refazer os balancetes diários da agência, referentes a vários anos. Isto lhe ocuparia o dia todo, impedindo-o de dar aulas. Então fez uma proposta para que eu desse as aulas em lugar dele, que ao final do mês me repassaria o que recebesse do Estado como professor. Informado da ideia, Dr. Messias, que então era diretor do Estadual, disse que “não dava certo” e conseguiu um contrato para que eu passasse a substituir oficialmente a Ribamar. O Estado me contratou e eu fui ensinar no Califórnia a turmas de terceiro ano ginasial. Dei aulas de 1972 até 1974, quando fui transferido pelo Banco para trabalhar no Centro de Processamento de Dados em Recife. Do Califórnia também saíram vários futuros doutores.

O Colégio Diocesano e o Colégio Estadual de Patos, junto com o Banco do Brasil, foram para mim escolas tão importantes quanto a Universidade Católica de Pernambuco, onde cursei Jornalismo, e a Faculdade de Direito do Recife, pertencente à UFPE, onde conclui o curso de Direito. A base me fora dada pelo Seminário Nossa Senhora da Assunção de Cajazeiras, onde me viciei na leitura. Vício que até hoje ocupa as minhas eventuais horas vagas. Terminei a minha formação básica no Diocesano e no Estadual, como aluno e como professor. Os cursos profissionais, Jornalismo e Direito, me foram fornecidos no vizinho Estado de Pernambuco, nos dois períodos em que trabalhei em Recife. A eles (Seminário, Diocesano, Estadual, Banco do Brasil com os cursos de formação que me proporcionou e os cursos de Jornalismo e de Direito) devo tudo o que consegui na vida. O Seminário a base intelectual, Diocesano e Estadual além da formação intelectual a facilidade de falar em público (nisso ajudados pelas transmissões de eventos da Rádio Espinharas, outra grande escola), Banco do Brasil os conhecimentos bancários e de administração, as faculdades os conhecimentos profissionais que tenho utilizado na minha última função como Auditor Fiscal do Trabalho.

Meus ex-alunos se espalharam pelo mundo, mas “aqui e acolá”, alguém me saúda no Facebook, dizendo ter sido meu aluno e agradecendo “pelo que aprendeu comigo”, nas aulas de Português. Na realidade, eu é que aprendi com eles. Pois, para “ter firmeza” nas aulas que dava, tinha que estar sempre bem preparado e isto me ajudou até hoje. Nos vários concursos de que participei, sempre me dei bem em Português, graças aos meus tempos de professor da matéria. No concurso que me deu acesso ao Ministério do Trabalho, fiquei numa colocação tão boa que me surpreendi. Terceiro lugar, no meio de vinte e tantos jovens, recém-saídos da escola, todos já formados e todos frequentadores de cursinhos preparatórios para concursos. No meio deles, três ou quatro coroas da minha idade. Quando fui verificar o gabarito com o resultado do concurso, descobri que “fechara” a prova de Português o que garantira minha boa colocação. O primeiro lugar daquele concurso hoje é procurador da Fazenda Nacional e dirigente máximo da Igreja Cidade Viva. O segundo lugar, um cunhado do primeiro, é Juiz do Trabalho na Paraíba. Ambos depois de terem sido auditores fiscais do Trabalho. Eu, aposentado pela segunda vez, tento escrever minhas memórias, enquanto “faço alguns bicos” para não “ficar parado”. Afinal, a sensação de inutilidade é o pior inimigo do idoso.

 

(LGLM)

 


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