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05 de janeiro de 2017, 08:38

Deus, onde você estava?


Deus, onde você estava?

De vez em quando somos questionados a respeito da ação de Deus diante de catástrofes, crimes brutais e chocantes, guerras silenciosas que matam de fome grande parte da humanidade, de um sistema político e econômico desumano. Em nível pessoal a expressão da dor se traduz na perda de um grande amor. A própria morte que faz projetos cancelados e arranca de nossos braços, sem permissão, aqueles a quem mais amamos. A distância e o abandono dos que se diziam nossos amigos. Nesses momentos surge a primeira pergunta: Deus, por que você permitiu? Essa expressão é um suspiro que emana do mais sombrio mistério. Afinal de contas, desde a nossa tenra idade sempre nos disseram que Deus é nossa proteção e amparo. Como entender que o protetor permita que o protegido sofra? Terá sido negligente? Diante desse dilema terrível, no decorrer da história houve pessoas que investiram tudo para provar que, por isso mesmo, Deus não existe. Um sorriso debilitado sai de suas faces em forma de ironia: Onde está o Deus a quem você ama? No Evangelho de João, Marta desafia Jesus no episódio da morte de Lázaro: “Senhor, se você estivesse aqui, meu irmão não teria morrido”. Em outras palavras, Marta está dizendo: Por que você atrasou tanto? Por que você não nos socorreu? Onde você estava?

A experiência de ser amigo de Deus é desafiante e reveladora. Brigar com Deus mesmo sabendo da disparidade de forças, desabafar quando já não entendemos mais nada e o grito só sabe dizer “por que?” Nesse momento o coração está em pedaços. A alma desfigurada não se reconhece. A voz parece não ser ouvida. O próprio Jesus convergiu em seu grito o trágico sufoco da agonia humana: “ Pai, por que você me abandonou?”

No tablado do mundo, no mais alto do palco sem luzes e sem público, a conturbada consciência humana chega a se perguntar: Qual a vantagem de ter um amigo tão complicado assim? Após o barulho da grande explosão da dor os olhos da fé rebuscam o sentido perdido movido por uma força invencível com esperança de ressurreição. As perguntas são refeitas e os ânimos também: Por que eu não me perdi na escuridão daquela noite? Por que, mesmo estraçalhado, eu sabia onde estava cada pedaço de mim? Por que eu não desisti de viver e de amar? As lágrimas não caem em vão. Estranha sensação é o choro. Deixa um rastro de leveza e maturidade. Infeliz de quem não encontra motivos para chorar. Só a fé madura e provada é capaz de nos recompor após a travessia de um deserto seco e árido. Crer é se jogar por inteiro na certeza de que existirão braços seguros e confiáveis como apoio. Crer é traduzir a voz de Deus com a ação da compaixão, da solidariedade e do amor. Crer é apostar naquele que o sistema perverso decretou como falido e inviável porque não alimenta mais sua ganância de lucro. Não perca a esperança. Nunca pare de sonhar mesmo quando faz escuro e todas as portas e janelas parecem fechadas para o seu apelo. Tenho certeza que, no final, você dirá: Obrigado Deus, foi só um desabafo. Como eu O amo! Enfim, eu sabia onde você estava!

 

Albertino de Sousa Barreiros é Padre Anglicano e Advogado.


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