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27 de março de 2017, 13:34

Inusitado desencontro na rede


Uma contava por volta dos 16, 17 anos. A outra engatinhava pelos cinco, seis anos. A diferença de idade, contudo, as aproximou. Primeiramente como uma espécie de adoção materno-filial de total consenso entre as partes. A diferença também não representou empecilho para que nascesse dali uma amizade, um pacto de atenção e proteção com todos os prenúncios e promessas de vida longa.

            Aí vieram os tradicionais enlaces sociais que acabaram rendendo um batizado de fogueira e, a partir dele, o estreitamento dos laços, desta vez até com uma forma de tratamento carinhosa. Tal afilhada, tal dinda. Depois, a participação na vida também se estendeu a testemunha e madrinhato do casório. Só faltou mesmo o apadrinhamento do primeiro rebento para selar os compromissos.

            O distanciamento, porém e em virtude das andanças e desencontros, afazeres e escolhas da vida, foi se estabelecendo. Mas, essa determinação da vida é dada de forma tácita. Afastamo-nos naturalmente dos amigos e familiares. Não nos afastamos por desavenças ou abandono, mas por injunções da vida corrida que vai canibalizando os laços e afetos.

            Mas, se a proximidade não era uma constante, a chama mantinha-se acesa e os avistamentos esporádicos e mais a energia que fluía à distancia fazia crer que a velha amizade cumpria os legados de longevidade e parceria cúmplice. Tudo ia bem e até aparecer, bem em meio a bela amizade, a raiz dos contatos, das malversações e das intrigas modernas: a rede social.

Nos tempos que correm é sempre surpreendente reencontrar amigos, fazer novos e estabelecer contatos diários com pessoas de perto e até de longe do conhecimento presencial. As velhas amigas se reencontraram numa busca casual por um dessas ferramentas básicas de exibição e comunicação e, também, como um ingrediente mavioso de contatos imediatos. À força de um simplório click todas as distâncias parecem ser superadas.

Acontece que para estar na rede o tempo todo é preciso desocupação e ter a disposição um bom suporte de internet. Sem isso, muitas palavras direcionadas a outrem podem ficar vagando no limbo ou só serem vistas em situações favoráveis. Mesmo sendo nossos smarts suficientemente promíscuos, do tipo que se deitam em qualquer rede, nem sempre temos o tempo e a habilidade de ver toda verborreia que nos enviam diretamente ou que nos interessam de alguma forma. Imagine, então, responder a todas.

Uma das amigas da estória – presumivelmente a mais nova – passava horas na frente da tela mantendo contatos com deus, o mundo e a madrinha. A dinda, porem, não estava a disposição da rede todas os minutos necessários para receber e responder os petardos da amiga. Nem, muito, menos dispunha de um suporte full time de internet. Tudo compreensível para quem desembarcou na atualidade diretamente da era das cartas e carteiros. Mas, para quem parece ter nascido na era da máquina, a falta de atenção contingencial soa como uma afronta. Uma dessas de romper enlaces e provocar brigas.

Não sei se essa anomalia atende por um nome, mas se coubesse um diria ser a síndrome da mão única, uma patologia moderninha. Algo semelhante à mão estendida que não encontra o cais seguro de outra mão para ancorar. Ou pior, a saudação que não encontra eco a chamada desesperada que não cata um interlocutor. A frustração pela perda da palavra emitida, nos casos mais graves, pode gerar acessos de ira extrema, com capítulos tragicamente hilários de torrentes de impropérios e tomadas bruscas de satisfação e chamadas ao terreiro com a faca entre os dentes.

Ou seja, a não resposta passa a figurar como uma descortesia a mais no repertório dos contatos e laços sociais.

Foi em um desses acessos que a afilhada, após alguns petardos perdidos, perdeu a compostura. Armou-se com o supra sumo do seu repertório de baixarias e ressentimentos, redigiu longa missiva e clique-se: mandou um spit fire virulento para quebrar todos os resquícios da velha amizade. A intenção, ao que parece, era não deixar nem os caquinhos da afeição.

Não sei precisar se alguma coisa sobrou da amizade. Se da estrutura longamente construída restou algum migalha de respeito. O que sei é que, pela virtualidade se constroem amizades e, ironicamente, através da incompreensão humana sobre a carência informática do “outro”, o esfacelamento das amizades está ali. A ridícula distância de um desumano, judicioso e gélido click.

por Edson de França        

 

 


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