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19 de abril de 2017, 16:31

VIOLÊNCIA: POR QUEM GRITAR?


Houve um tempo que não existia o Estado ou Instituição para proteger as pessoas e garantir-lhes respostas para suas necessidades. Diante dos conflitos sociais declarava-se guerras e vencia quem tivesse mais força. Quando alguém adquiria bens ou algum outro valor econômico qualquer pessoa poderia tomar para si esses bens ou valores. A vida humana não possuía qualquer importância. Para um homicídio, por exemplo, não havia pena.

Aos poucos, as pessoas foram percebendo que esse modelo de convivência social não poderia continuar.

Criou-se a ideia de um PACTO SOCIAL. Filósofos do direito como Jean Jacques Rousseau, Immanuel Kant e Friedrich Hegel, entre outros, sintetizaram um pensamento segundo o qual o homem não pode viver sem um ENTE PROTETIVO que congregue para si e em si o direito e o dever de proteger a todos. Desse pensamento nasceu a concepção de Estado tal como o conhecemos hoje com a concretização do Estado de Direito onde o ordenamento jurídico valha para todos em substituição ao antigo regime absolutista em que o rei era o próprio estado.

Segundo Rousseau, por meio do Contrato Social, cada cidadão renunciaria à parte de sua liberdade original (pois todo homem nasce livre, igual e bom) para construir uma personalidade capaz de estender um “manto protetivo” a todos os indivíduos. Esse contrato é uma reunião de forças, pois elas congregadas superariam a força individual.

Essa Entidade (O Estado) não existiria para sufocar as liberdades, a vida e os direitos de cada cidadão, mas para garantir-lhe esses valores fundamentais. Trata-se de um Corpo segundo o qual cada pactuante se colocaria como um membro. A ofensa a um só indivíduo configuraria uma ofensa a todo o corpo.

Hoje, são muitos os desafios que desfiguram essa concepção de Estado que não é a melhor e mais perfeita. Parece que ficou no tempo, como se fosse um protótipo romântico. Poderíamos falar da corrupção, da moral e ética na política, dos atentados à dignidade do trabalho e da violência urbana e rural.

Mas, quero falar sobre a violência urbana e rural. O cidadão contemporâneo vive à mercê da sua própria sorte. Falta-lhe segurança no local de trabalho, em casa, na rua, na Igreja. Não há por quem gritar. O mundo do crime investe dia e noite na tecnologia, armamento de última geração e engenharia de ataque. O arrombamento e explosão de bancos e caixas eletrônicos se tornaram um espetáculo de exposição da Inteligência do crime. Não há um pequeno ou médio estabelecimento comercial que não tenha sofrido mais de um assalto tendo como vítimas clientes e funcionários. Nasce um novo modelo de mercadinho, aquele cujo atendimento aos clientes é feito por meio de um pequeno espaço na grade de ferro que protege a porta de entrada, pela qual ninguém entra. Lembra um presídio para cidadãos do bem. As próprias residência são projetadas com grades nas portas e janelas, nos sítios e cidades, as quais só são abertas após uma minuciosa certeza de quem está do lado de fora. Voltamos ao estágio inicial da barbárie. Só vai sobreviver o mais forte? A polícia (palavra que lembra, por ironia, a instituição que guardava a “Polis”, que eram as cidades-estado gregas), ostensiva e preventiva, em muitas cidades, só dispõe de dois ou três homens. Esse efetivo se trona meramente simbólico para tal desafio. Na zona rural as pessoas se recolhem logo após o pôr do sol. Você se lembra de um tempo quando corríamos para os sítios e fazendas para encontrar paz e tranquilidade? Como era formidável dormir nos alpendres e varandas com as portas abertas ou apenas fechadas com taramelas, curtindo a brisa suave da noite e, ao amanhecer, o canto dos passarinhos. Nas cidades e povoados as calçadas, à noite, eram lugar de encontros, orações e celebrações de agradecimento pelo dia que passou. Foi-se o tempo que violência era um mal dos grandes centros urbanos. A vida perdeu seu valor. Lembro-me de um homem vítima de homicídio e, ao lado, um campo de futebol improvisado onde as pessoas brincavam e se divertiam indiferentes àquele ato.

Esperamos um dia a plenitude da paz e da harmonia social em nosso País. A observância da ética e da moral em todas as esferas da atuação do Estado de Direito e a eficácia das leis, frutos do pensamento e vida de homens e mulheres íntegros. Sonhar não é caro.

 

                                           Padre  Albertino de Sousa Barreiros

 


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