comentários  

01 de junho de 2017, 08:34

O dia em que essa terra parar


A cena que gostaria de ver ao final de cada paralisação convocada nacionalmente seria a de nossos “comentadores” de TV,ou ao menos uma quantidade razoável deles, os magnatas, apalermados, em pleno horário nobre, com a cara de tacho, sem ter notícias objetivas das ruas para analisar com suas frias lentes e opiniões parciais. Sobretudo aquelas que revelam suas paixões ou não escondem, apesar dos malabarismos verbais, seus compromissos politico-ideológicos.

É que os jornalistas, esses operários reais das noticias, teriam boicotado a produção diária de sentidos, solenemente, em respeito à paralisação geral. Em segundo, estariam parados, por terem atingido, afinal, a consciência de seu papel de obreiros e, munidos da dignidade que lhes resta, estariamprotestando contra os valores expressos, em michos reais, nos seus holerites e, também, contra as condições, aspressões do trabalho e os direcionamentos ideológicos das empresas em que militam. Se bem que não sei se as TVs estariam no ar, afinal os técnicos teriam também cruzado os braços.

Na canção O dia em que a terra parou(Raul Seixas, 1977), o “maluco beleza” inspirou-se em um filme – O dia em que a terra parou (EUA, Robert Wise, 1951) – para criar uma alegoria sobre uma possível hecatombe do sistema. Um colapso passageiro capaz de desestabilizar, nem que fosse por um dia, toda estrutura que dá sustentação a produção de riquezas, a concentração e a acumulação econômica.

Seria, assim, uma forma de exigir uma parte maior do bolo ou, no mínimo, o reconhecimento do papel estratégico dos trabalhadores, o tal fator humano no processo de produção. Aquele que é sempre vilipendiado em seus direitos e necessidades mais básicas de sobrevivência.

A narrativa da estória contida na canção desenrola-se qual um efeito dominó. Se um para, impede o outro de executar alguma atividade, profissional ou mundana, e assim por diante. Ao final, até o garçom do bar da esquina – cujos patrões recolhem dos clientes e não repassam os 10% - estariam fazendo hora, ociosamente, na praia. Não sei, também, se estariam lá porque o sistema de transporte público estaria parado e os postos de combustíveis não contariam com seus anteparos de assalto, os frentistas, sobre os quais recaem alguns descontos salariais dos recursos suprimidos pelos larápios. Ou seja, aquela hora, a do prejuízo, em que o empregado é “colaborador” de primeira linha, quase sócio.

Pelo discurso formal todos devem contribuir “com sua parte para o nosso belo quadro social”. E a rigor todos participam assumindo seus papéis, acreditando neles e, sobretudo, acumulando visões parciais do processo que envolve indivíduos, instituições, sociedade, empresas transnacionais, contratos e tudo o mais que mantém o indivíduo preso à cadeia produtiva do mundo. Aquela que ao mesmo tempo em que o mantém, mais ou menos íntegro em suas necessidades básicas, trabalha por tirar de si o melhor de sua força criativa e laboral.  

Mas nunca será aquela visão evocada no inicio desse texto que veremos. Não. Sejamos utópicos apenas. A paralisação como todas as outras, excetuando-se aquelas datas festivas de oba-oba (aquelas mesmo em que você bebeu doses patrióticas, vestiu a camisa da seleção e foi às ruas fazer a digestão da refeição domingueira e cujo alcance da mentalidade do “só pararia aos domingos para não atrapalhar a economia do país”) são pontuais e desarticuladas. Experimenta-se por aqui uma apatia por esses movimentos. Há um misto de medo e indiferença por parte da incomensurável maioria de nós quanto a eles, bem como desconfianças fundantes sobre sua efetividade.

O país não para. No máximo, veremos escolas sem alunos e pais amorosos e atarefados reclamando pelas “pestinhas” não terem para onde ir. Caberia, talvez, gerar discussões a ferro e fogo sobre aonde chegamos, como caminhamos e que proposituras ou o que queremos com a educação desse país. Ou pelo menos, que servisse para os pais refletirem sobre seus papeis na formação da geração futura.

Outros tantos chegarão atrasados aos empregos porque o sistema de transporte coletivo estará parcialmente paralisado. Caberia abrir discussões sobre o sistema público de transporte de massas como um vetor de desenvolvimento e de capitalização, apenas pela mobilidade eficiente dos agentes básicos da maquina produtiva. O automóvel trouxe progresso através da mobilidade das pessoas, portanto, mais de 10 minutos numa parada de ônibus, por exemplo, é anti-producente.

Teremos senhorinhas e senhores “quebrando a cara” num posto de saúde, muitos tendo viajado horas, por uma consulta,há muito marcada. Deveríamos discutir as condições com que se faz saúde de massa neste país; a formação de seus agentes, as condições de trabalho, a extensão dos direitos, os investimentos, a excelência dos serviços prestados, a fiscalização que evita desvios (inclusive aqueles que durante anos serviram para aparelhar a maquina privada).

Teremos outras instituições públicas paradas. Teremos bandeiras denunciando o desmonte de algumas, a descaracterização de outras e um clima de insensibilidade que grassará país afora. Tudo obra de baderneiros, sindicalistas e marajás do serviço público dirão alguns para a credulidade total dos demais. Esse é o máximo de consciência que conseguiremos atingir.

A paralisação sempre afeta alguma coisa que desagrada. Há uma emergência em torno da reforma da previdência e trabalhista. Mas ninguém, nem governo que defende nem quem é contrario, consegue ser didáticos quanto aos pontos principais. Além disso, falta-nos inteligências isentas que nos batam a real e tracem prognósticos das possíveis mudanças. Há sombras e é tudo. Nosso bólido social desfila pela high way, há nuvens mal humoradas no céu e nossa reação coletiva, a nível prático e de mentalidade, sempre estará um passo atrás da real necessidade.

No mais, o sistema – através de seus maiores representantes nos nichos empresariais, industriais, políticos e legais - fecha-se, protege-se, observa e ri, enquanto seus arautos, em horárionobre, munidos de dados “oficiais” que revelarão o raquitismo das mobilizações e tratarão de desqualifica-las.

por Edson de França 

 


Publicidade
Publicidade

Comentários

O utilizador reconhece e aceita que o PATOSONLINE.COM, apesar de atento ao conteúdo editorial deste espaço, não exerce nem pode exercer controle sobre todas as mensagens. O PATOSONLINE não se responsabiliza pelo conteúdo de mensagens publicadas no mural ou comentários de postagens.