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29 de julho de 2017, 12:56

OS CONFLITOS DE UM PADRE-ADVOGADO


Recentemente, fui desafiado por temas com os quais convivo há algum tempo. Refiro-me a casamento e divórcio. A Palavra CASAMENTO lembra casa. Aquele ato solene, livre e público deverá ser consolidado em uma casa e tem o amparo do Estado. Por sua vez, a palavra MATRIMÔNIO deriva de MATER+MÚNUS. O ofício da Mãe nos encargos da criação e educação dos filhos no conturbado mundo feminino romano. Paralelo, vem o vocábulo PATRIMÔNIO, isto é, PATER+MÚNUS, ofício do Pai, do homem, na tarefa de administrar os bens. É interessante que, apesar das restrições ao papel da mulher e do valor dos bens materiais, o casamento não se chamou PATRIMÔNIO, mas sim, MATRIÔNIO cuja simbologia semântica foi apropriada pelo Direito Canônico.

 Quando assumi a missão de advogar, deparei-me frequentemente com causas de divórcio.  Propus-me a estudar cada causa como se fosse a primeira e a única. Tudo porque a grande maioria das demandas judiciais sobre divórcio necessita tão somente de um aconselhamento, um ombro amigo. São horas de conversas. Se preciso for, ir até à casa da família, atento aos mínimos detalhes que são o “diabo” do problema. Certa vez fui a um domicílio para acompanhar um caso desses. Havia uma criança chorando e pedindo que me retirasse. Gritava aos prantos: “advogado chato, você veio separar meus pais, vá embora!” Eu estava ali por motivos contrários. Queria que seus pais não se divorciassem. Quantos casamentos consegui salvar, meu Deus! Isso me rendeu críticas no mundo jurídico por alguns, dizem que assim, comprometeria meus honorários e outros benefícios profissionais. Críticas na contramão do Novo Código de Processo Civil e dos pressupostos da nova visão da advocacia pacificadora e preventiva, pois o advogado é o primeiro juiz da causa. Os grandes casamentos, muitas vezes, terminam por pequenos motivos. Essa reflexão não é idílio. Além do mais, sou Padre casado, tenho um filho e não falo de “ouvir dizer.”

Porém, apesar de todo esforço, paciência e perseverança, nem sempre é possível preservar um casamento.  Conviver com conflitos jurídicos no mundo familiar é preciso coragem, pois as marcas de dor, lágrimas, mágoas e sofrimentos estão presentes. Quem um dia disse: “Venha, meu bem!” Outro dia poderá dizer: “Venham meus bens!” Foi para isso que voltei ao Ministério Sacerdotal. Achei que ser advogado seria pouco. Como advogado não consigo chegar aonde chego como Padre.

A reflexão começou a partir de uma pergunta no facebook: “Padre, sou divorciado e casei-me no religioso. Meu primeiro casamento chegou ao fim. Encontrei uma outra mulher a quem amo muito. O senhor poderia celebrar meu casamento religioso? A resposta foi: “SIM”. Prontifiquei-me a celebrar o casamento daquele homem que vive uma nova experiência de vida familiar. Isso só é possível porque sou Padre Anglicano. Tenho a liberdade de realizar esse casamento. Nesses momentos minha consciência busca na Bíblia respostas para esses conflitos. O Evangelho de Mateus nos apresenta Jesus dizendo que “o homem não deve separar o que Deus uniu”- Mt. 19,6. Jesus fala a respeito de uma união inserida em contexto de normalidade. Entretanto, a vida apresenta situações inimagináveis. O amor, como um grande projeto humano, deve ser pensado para toda a vida. Mas nem sempre é assim. Entendo que uma vida a dois tem que refletir paz e harmonia. Não há “inferno” maior do que conviver em conflito com pessoas. Isso se torna pior quando a convivência é familiar. Há os que superam e há os que rompem com esse sistema de conflitos.

A Igreja Católica Romana ao longo dos séculos, ensinou que o Sacramento do Matrimônio celebrado validamente e consumado, é indissolúvel. Quem sair dessa união e contrair outra, não poderá se casar nem comungar porque está em pecado.  Esse ensinamento levado ao extremo criou uma cultura de discriminação. No Brasil houve tempos nos quais as pessoas “amancebadas” ou “amasiadas” não podiam frequentar os ambientes sociais e religiosos. Eram chamadas de AMANCEBADAS. Essa palavra vem de uma expressão do português antigo “MANCEBO” (Do latim- manus capere, isto é, pego à mão). Portanto, amancebada era quem se juntava a um mancebo. Mancebos eram os jovens rapazes capturados nas guerras e levados como escravos para trabalharem nas casas dos oficiais vencedores e acabavam se relacionando afetivamente com as filhas dos tais oficiais e impedidos de se casarem por não ostentarem a condição de cidadãos romanos. Essa expressão foi pensada para transmitir uma visão negativa das pessoas e causar-lhes constrangimento e exclusão social.

Fico pensando nos conflitos de um casal cujo relacionamento não deu certo. O que diria Deus no seu Coração Bondoso e Misericordioso? Vêm-me à mente as Palavras de Jesus: “Eu nunca rejeitarei aquele que vem a mim”- Jo. 6, 37. Junto ao Poço de Jacó Jesus dá a uma mulher adúltera a condição de evangelizadora –Jo.4,21. Na última ceia, sabendo o que se passava no coração dos doze Apóstolos presentes no Cenáculo, Ele deu a Comunhão a todos, inclusive a Pedro que o negaria três vezes e a Judas que o trairia por um salário mínimo-Lc. 22,14.

A Teologia Moral Católica foi ensinada com a promessa do inferno. Não há mais espaço para falar de inferno. As pessoas vivem aflitas com o inferno que se transformou este mundo. Porém, não nego que o mistério do mal leva a consciência da pessoa a uma decepção eterna. Entretanto, o homem do nosso tempo tem fome e sede de esperança. O Papa Francisco lançou no dia 8 de abril de 2016 a Exortação Apostólica AMORIS LAETITIA (Alegria do Amor). No Capítulo VIII Francisco escreve que “os batizados que se divorciaram e voltaram a se casar civilmente devem ser integrados na comunidade cristã sob as diferentes formas possíveis”. Esse documento tem causado reação de dois cardeais alemães, um americano e um italiano. Esses homens têm infernizado a vida do Papa por considerarem que houve uma heresia e ruptura do Magistério da Igreja na questão da Moral Sexual Católica.

Enquanto isso, a Teologia Anglicana caminha. Vivemos isso, particularmente, na Diocese Anglicana de Votorantim. Deus fez a pessoa humana para ser feliz. Não é por motivos banais que a celebração religiosa numa segunda união pode ser realizada. Mas, se corações sinceros consigo e com Deus, procuram a oportunidade de um novo casamento, isso é possível porque, se temos amor por Deus, é um fato que Ele nos amou primeiro antes de existirmos. “Por conseguinte, quem sente medo ainda não está realizado no amor. Quanto a nós, amamos, porque Deus nos amou primeiro”- 1Jo. 4, 18-19.

 

Albertino de Sousa Barreiros- Advogado e Padre Anglicano.

 


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