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16 de setembro de 2017, 13:06

PAIXÃO E LOUCURA


Nossa existência precisa ter sentido. É uma sentença definitiva: Ninguém veio a este mundo por acaso. Para ajudar a encontrar este sentido a própria natureza humana é dotada de recursos que nos impulsionam a nos transcender. Um desses dispositivos é a paixão cujo sentimento não pode ser absoluto. A paixão acontece como uma etapa natural que antecede a um projeto definitivo. Se não for nessa ordem ela danifica a marcha processual do projeto que leva o ser humano à felicidade plena. Gostaria de começar esta reflexão com a música “Quando alguém se apaixona” de autoria e interpretação do cantor e compositor Cléo Galante a qual fez sucesso nos anos 80: “Quando alguém se apaixona fica bobo, fica louco, perde a razão. Não adianta conselhos, está preso, dominado pelo coração... Quando alguém se apaixona logo esquece as amizades que sempre prezou. É capaz de ir ao espaço pra buscar aquela estrela que ela gostou...Quando alguém se apaixona não admite que ninguém venha lhe criticar. Mesmo estando tudo errado, não consegue, não procura nada enxergar...’’  Mas, o que é a paixão?  Toda pessoa humana precisa um dia se apaixonar.

Quem nunca se apaixonou poder ter queimado etapas em sua vida e terá que voltar no tempo qualquer dia desses para realizar o que não fez. Você se lembra do vovô da vitrine que incorporou o adolescente de outrora?  Só a paixão eterniza uma vida. Ela não é trilho, é trilha que leva à imortalidade. A paixão é um sentimento intenso e profundo capaz de tornar perplexo o olhar em direção ao ente-símbolo da paixão. Ela desloca o estado da alma cujos reflexos penetram na produção plasmática e mais universal que possa exprimir um ser apaixonado que é a canção em forma de poesia. Platão definiu a paixão como “o desejo de vislumbrar algo que não consiste na realidade essencial, ou seja, contentar-se em ver com o ideal imaginário”. É um sentimento espontâneo, quase involuntário a ponto de ser impossível alguém dizer que quer se apaixonar e se apaixona. Mas é preciso cuidado.

Se alguém não quer se apaixonar não pode admirar continuamente algo, não pode absolutizar o que olha ou contempla. Eis o furacão dos sentimentos. Todo apaixonado está acometido de uma revolução físico-química provocada pela dopamina causadora da euforia dos sentidos que emana do espírito.  A adrenalina e noradrenalina lhe fazem alterar o batimento cardíaco, para cujo corpo não há cansaço nem distância, que fazem suas células e toda sua estrutura medular ficarem em estado de vigilância e prontidão qual um médico plantonista nas noites de uma clínica. Mas, como disse, a paixão precisa passar e tem que passar, sob pena de levar o sonhador à loucura. É lindo e empolgante ver o ardor e entusiasmo dos apaixonados.

Os riscos são o motor dos seus sonhos. Talvez menos nobre são os que não se definem. Os que passaram a vida escalando muros por medo dos abismos ou de sucumbirem em suas fragilidades. Porém, a paixão pode matar ou se transformar em fanatismo.  Estamos na temporada do fanatismo político, religioso, esportivo... As eleições se aproximam e imagino como nos tornamos radicais na defesa do nosso candidato, da nossa religião, do nosso time, da nossa ideologia a ponto de não podermos nos encontrar como família, como Igreja ou como amigos.

Não podemos mais sair nas ruas com a camisa do nosso time querido ou assistir a uma partida de futebol em paz. Não podemos mais estender nossas faixas de protesto nas manifestações democráticas nas ruas e avenidas deste país. Não podemos mais louvar a Deus com segurança em nossos templos. A paixão tem que ter sua medida, seu tempo, seu espaço. Como um cálice de vinho bom inebria e encanta, o vinho em exagero provoca ressaca. Quantas pessoas têm sentimento de revolta e marcas negativas quando recordam suas paixões. Acham que ficaram ridículas e inoportunas como um bêbado conferencista. Ela pode acontecer por causa de uma pessoa, por um projeto de vida, por uma ideologia, por uma fé, por um ideal, por uma causa nobre. Aliás, toda causa da paixão deve ser nobre. Depois vem o amor. O próximo passo para a concretização do sentido da vida.

 

                         Albertino de Sousa Barreiros- Advogado e Padre Anglicano.


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