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12 de novembro de 2009, 08:26

Estou ficando velho (por Sousa Irmão).


Descobri  isto, um  dia desses, ao receber pelo orkut a foto de um amigo que há muito tempo eu não via e foi  aí que eu descobri  que os espelhos me enganavam e que a minha imagem, neles  refletida, era falsa e estúpida. Em que pesem  os anos que já vivi neste planeta  desgastante e corrosivo e ainda que tendo consciencia de que, quando jóvem, serviria de modelo muito mais para um Quassímodo do que para um Apolo, o retrato do meu amigo ausente me assustou.

Ora; convivemos diuturnamente os melhores anos de nossa juventude. Éramos radialistas, amigos e companheiros. Ele um verdadeiro Apolo Tupiniquim e eu raquítico, cabeludo e feio – mais do que sou hoje em dia -  de forma que sempre me cabiam as sobras de suas conquistas. Isto é, as mulheres mais feias é que me faziam companhia e me consolavam. A ele cabiam as divindades, os corpos esculturais e belos, as divas desejadas.Para mim elas eram inalcansáveis.

Agora, estava ali o retrado mais recente dele, diante dos meus olhos e de minha perplexidade.

Enquanto eu analisava as suas feições mudadas através da foto a mim enviada, meditei sôbre a corrupção a que nossa carne está submetida, sobre a crueldade de Cronos que nos consome, dia a dia, sem permitir que percebamos o desgaste lento e cruel  a que nos submete o seu processo devorador e fatal. Relembrei alguns  momentos felizes, histórias incríveis, situações engraçadas e outras tantas vexatórias das quais participamos juntos como dois amigos fiéis e inseparáveis.

Estamos ficando velhos, eu e ele. Eu sabia e todos sabemos que isso é um processo imutável a que está submedida a natureza humana. Nunca me assustei com a velhice pois ela, um dia, fatalmente, chegará e aniquilará todas as minhas forças carnais e mentais. Chegará o dia em que voltarei ao pó da terra. O que me consolava era saber que pela trajetória do caminho percorrido na luta diária pela minha subsistência, eu me esforçara para deixar algo de bom e de útil que servisse de exemplo para a minha posteridade.Imaginei que, quando velho estivesse, os mais jóvens me tratassem com deferência e respeito.Ouvissem meus conselhos. Abrissem os ouvidos para minhas orientações sábias, porque todo velho é um sábio, na minha opinião. E não confundam sabedoria com conhecimento.

Mas parece que estou enganado.Os jóvens não gostam dos velhos.Wandecy me disse isto com toda a clareza. E, quando eu estiver velho talvez o preconceito seja ainda o mesmo. Assim, tenho consciencia de que somente os velhos amigos me darão atenção.Desta forma vou me dedicar mais a eles, com certeza.Os jóvens que façam amizades robustas que lhes amparem  na solidão da velhice.

Quanto ao meu amigo, tomei uma decisão. Enviei para ele as minhas fotos mais recentes. Acrescentei as fotos de minha mulher, dos meus filhos e do meu neto. Em vão esperei que ele, usando de sua  sinceridade contundente me enviasse um e-mail dizendo: Te cuida amigo, estás mais velho do que eu. Ele, no entanto, nada a respeito me disse.Apenas silenciou. Talvez com medo de admitir que estivesse ficando velho, igualmente.

É duro admitir mas a vida passa com a rapidez de um raio.Na juventude, vivemos cercados de amigos, de alegria, de esperanças. Alguns amigos se vão em busca de seus projetos de vida .Outros ficam e nos acompanham até o túmulo ou somos nós quem lhes damos o adeus às portas da última morada.Outros há que se perdem na poeira do tempo e, às vezes, nem marcas deixam no caminho para que, através delas, possamos reencontrá-los.

São esses últimos  que, se casualmente os encontramos, testemunham o nosso ocaso, o nosso desgaste a nossa insuperável fragilidade.

A vida é assim, amigo. No fim restará apenas o consolo espiritual de que somos imortais em essência. Há algo imortal dentro de nós e isto o sentimos e sabemos embora, por modismo ou ignorância absurda, queiramos negar aos outros que acreditamos. Eu mesmo tenho a convicção de que estou sendo reciclado ou depurado, como se a vida fosse um cadinho no qual as lutas diárias sejam como o fogo que nos retira todas as impurezas, para que possamos, um dia, na distante eternidade ,renascermos  num mundo mais perfeito que o nosso, em um novo corpo material menos corruptível, até que de vida em vida, de corpo em corpo, cada vez mais perfeitos possamos encontrar a paz eterna.O descanso final.Aí seremos semi-deuses.

E então, nesse mundo perdido na eternidade o qual alcançarei, certamente, pelos meus próprios esforços e méritos ,não mais perderei os amigos, não me separarei dos que amo e estimo , não temerei a solodão e nem o desprezo e nem terei mais medo dos espelhos porque a velhice não mais existirá.

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"o senhor dispõe só de alguns anos para viver deveras, perfeitamente, plenamente. Quando a mocidade passar, a sua beleza ir-se-á com ela; então o senhor descobrirá que já não o aguardam triunfos, ou que só lhe restam as vitórias medíocres que a recordação do passado tornará mais amargas que destroçadas.".

O retrato de Dorian Grey

(Oscar Wilde)

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Souza Irmão

11-11-2009


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