As previsões que apontam para a formação de um "Super El Niño" e uma possível grande seca no Nordeste têm gerado preocupação entre agricultores e pecuaristas. No entanto, o doutor em Meteorologia e professor da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf), Mário de Miranda Vilas Boas Ramos Leitão, considera que parte dessas informações vem sendo divulgada de forma exagerada e recomenda cautela, especialmente para quem vive e produz no Semiárido.
Em contato com o Patos Online, o meteorologista afirmou que ainda não existem elementos técnicos suficientes para confirmar um cenário de seca extrema na região e alertou para o risco de produtores tomarem decisões baseadas em previsões sensacionalistas.
Segundo Mário Leitão, embora o fenômeno El Niño possa influenciar o regime de chuvas, ele não significa automaticamente a ocorrência de estiagem no Semiárido. O pesquisador destaca que estudos mostram que, em apenas 46% dos anos em que houve El Niño, também foram registradas secas no Nordeste. Nos demais 54%, isso não ocorreu.
"O agricultor e o pecuarista precisam ter muita cautela. Não é momento de vender gado ou propriedades por medo de uma seca que ainda não está comprovada por estudos consistentes", afirmou.
O meteorologista explica que, quando um evento de El Niño está em formação, o Oceano Pacífico normalmente começa a apresentar aquecimento a partir do mês de maio. Segundo ele, até o momento, o aumento da temperatura das águas é considerado pequeno, o que ainda não permite conclusões definitivas sobre a intensidade do fenômeno.
Para Mário Leitão, qualquer previsão sobre os impactos para o Semiárido deve ser baseada em dados técnicos produzidos por instituições especializadas, evitando interpretações precipitadas.
Outro ponto destacado pelo pesquisador é que o clima do Nordeste não depende exclusivamente do El Niño. Conforme explica, outros sistemas atmosféricos e oceânicos também exercem influência sobre o comportamento das chuvas, o que exige uma análise conjunta antes da emissão de prognósticos para a região.
O professor também criticou a divulgação de conteúdos que tratam a possibilidade de um El Niño intenso como certeza de uma grande seca. Segundo ele, esse tipo de abordagem pode provocar insegurança entre agricultores e pecuaristas, levando a decisões precipitadas e, consequentemente, a prejuízos econômicos.
Para o meteorologista, a população deve acompanhar as informações divulgadas por órgãos oficiais e profissionais qualificados da área antes de tomar decisões baseadas em previsões ainda incertas.
O especialista reforça que o El Niño é um fenômeno natural amplamente estudado pela ciência, mas destaca que seus efeitos variam de um evento para outro. Por isso, segundo ele, ainda é cedo para afirmar que o Semiárido enfrentará uma grande seca em decorrência do fenômeno previsto para os próximos meses.
Por Patos Online