A política paraibana entrou num modo de convivência forçada no campo governista: de um lado, a ata de convenção e encaminhamentos do PT na Paraíba indicando alinhamento com a chapa majoritária e, no Senado, sinalizações para João Azevêdo e Nabor Wanderley; do outro, o presidente Lula gravando vídeo e declarando prioridade na reeleição de Veneziano Vital do Rêgo. Na prática, o que se vê é um palanque com duas narrativas — e cada grupo tentando transformar isso em vantagem.
Nos bastidores, dirigentes petistas admitem que a disputa pelas duas vagas ao Senado virou um jogo de equilíbrio: o partido quer estar “bem posicionado” com quem pode entregar estrutura, tempo de TV, alianças municipais e capilaridade, sem abrir mão do senador que vota com o governo em Brasília e vende a imagem de “aliado leal” de Lula.
A leitura é menos ideológica e mais pragmática. João Azevêdo concentrou a caneta, a agenda administrativa e a capacidade de organizar um palanque estadual competitivo. Já Nabor entra como peça de uma engrenagem maior: o grupo Motta, com Hugo Motta no centro, visto por muitos como a força em ascensão com maior poder de articulação (e influência nacional) — algo que pesa em qualquer montagem de chapa.
A estratégia atribuída ao PT é simples de entender e difícil de executar: não comprar briga frontal com a estrutura governista local e, ao mesmo tempo, não romper com um senador que ajuda o Planalto. O resultado é um desenho que tenta contemplar todo mundo — e por isso mesmo produz atritos.
O vídeo de Lula não é um detalhe: ele funciona como selo nacional e instrumento de campanha. Integrantes do entorno de Veneziano apostam que, em eleição majoritária, o eleitor médio tende a guardar a informação mais “forte” e simbólica: “Lula pediu voto”.
Além disso, há o fator Congresso: para o Planalto, Veneziano é apresentado como alguém que entrega previsibilidade em votações. Essa “credencial de governabilidade” é o ativo que o senador tenta converter em voto no estado.
Com duas vagas em jogo, o “ponto de combustão” não é só quem é o primeiro nome, mas quem fica com o segundo voto — e em quais regiões. Nessa matemática, cada declaração pública tem efeito imediato:
O grupo de Nabor/Motta quer transformar a sinalização partidária em compromisso real de campanha, com presença em palanques e distribuição de apoios locais. O grupo de Veneziano tenta enquadrar o debate como “apoio de verdade” (Lula) versus “apoio burocrático” (ata/arranjo estadual).
Já a federação (PT, PCdoB e PV) aparece tensionada porque nem todo mundo aceita a mesma engenharia: há quem defenda a lógica “João + Veneziano” e quem trate Nabor como peça essencial do arranjo.
A aposta tática: agradar duas forças para não perder nenhuma
O que analistas descrevem é uma tentativa do PT de preservar pontes com os dois polos que podem ser decisivos em 2026/eleição:
Veneziano, como aliado nacional e voz pró-Planato; grupo Motta, como força ascendente com musculatura municipal e trânsito em Brasília. A conta é: se o PT brigar com um dos lados agora, pode perder palanque, capilaridade e alianças futuras. Se tentar acomodar ambos, corre o risco de ser acusado de ambiguidade — e acabar não sendo “prioridade” de ninguém.
Adversários já exploram o enredo de “PT dividido” e “palanque duplo”. Se a narrativa colar, pode: reduzir a eficiência de mobilização (ninguém sabe quem defender com clareza); estimular “rebeliões locais” (lideranças municipais escolhendo seu lado e ignorando orientação estadual);
e criar um custo: o PT aparece como partido que “quer tudo” e entrega pouco.
Nos próximos movimentos, o termômetro será: Quem sobe no palanque com quem (agenda e fotos); Como o PT vai orientar sua militância (prioridade explícita ou “libera geral”); Se haverá nota de ajuste para compatibilizar o vídeo de Lula com os encaminhamentos locais; E, principalmente, como prefeitos e lideranças regionais declararão o “segundo voto” — aí é onde a eleição tende a se decidir.
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