
O namorado da servidora pública Raíssa Bezerra e Silva, de 44 anos, que morreu após comer em uma pizzaria em Pombal, no Sertão da Paraíba, busca respostas para a tragédia. André Marreiro, de 39 anos, que também passou mal, sobreviveu e agora lida com a dor de perder a companheira com quem namorava há oito meses.
"Queremos uma resposta do que aconteceu, porque é muito difícil aceitar que eu perdi Raíssa por causa de uma fatia de pizza", desabafou André.
O namorado de Raíssa está entre as mais de 100 pessoas que procuraram atendimento médico com sintomas de intoxicação alimentar. Os dois foram atendidos no Hospital Regional de Pombal por duas vezes: na noite do domingo (15) e na manhã da segunda-feira (16).
O surto de intoxicação alimentar na pizzaria de Pombal está sendo investigado pela Polícia Civil e também pelo Ministério Público da Paraíba.
Na noite de domingo (15), o casal decidiu jantar em uma pizzaria onde nunca havia ido. Eles pediram uma pizza metade calabresa e metade carne de sol na nata. Após a refeição, André deixou a namorada em casa e seguiu para a sua. Cerca de 15 minutos depois, ele começou a passar mal. "Comecei a sentir os calafrios, aquela ânsia de vômito, aí já comecei a vomitar", relatou.
Pouco depois, ao pegar o celular, viu uma mensagem da irmã de Raíssa informando que ela também não estava bem. André dirigiu até a casa dela e levou a namorada para o Hospital Regional de Pombal.
"Quando a gente chegou lá, parecia uma guerra. Era um atrás do outro, gente de cadeira de rodas, gente segurada pelo braço", descreveu.
O casal foi medicado e liberado após apresentar sinais de melhora, mas, na manhã seguinte, segunda-feira (16), ambos acordaram passando mal novamente e retornaram ao hospital. Desta vez, foram internados na mesma enfermaria para receber medicação intravenosa. Enquanto André apresentava melhora, o quadro de Raíssa se agravava.
Um médico de plantão percebeu a gravidade da situação ao constatar que ela estava muito desidratada, com batimentos cardíacos alterados e a saturação de oxigênio oscilando. Raíssa foi imediatamente transferida para a ala vermelha, enquanto André recebeu alta, mas permaneceu no hospital para acompanhar a namorada.
O estado de saúde da servidora pública piorou rapidamente. Ainda na tarde da segunda-feira (16), ela deu entrada na UTI, e foi lá onde André viu a namorada pela última vez.
"Eu visitei ela na UTI, ela estava muito agitada, pegou na minha mão, apertou forte, como se pedisse socorro, ou como se quisesse falar alguma coisa", contou André sobre o último contato.
Na noite da segunda-feira (16), Raíssa Bezerra teve falência renal e precisou ser intubada. Na manhã de terça-feira (17), por volta das 8h50, a mulher faleceu, uma notícia que chocou a família. "A gente estava com a fé de que ela ia sair, que ia ser apenas um tratamento de dois, três dias, ou uma semana, mas que ela iria melhorar".
A servidora pública foi enterrada na manhã desta quarta-feira (18), em Pombal.
A família busca entender o que aconteceu, já que Raíssa não tinha nenhuma doença preexistente conhecida. "Acho que não tem nem 30 dias que Raíssa fez endoscopia e não deu nada, fez exames de sangue, deu tudo perfeito", afirmou o namorado.
Os planos de casamento foram interrompidos pela tragédia. Agora, o desejo é por justiça e clareza.
"Eu não vou condenar a pizzaria porque eu não sou juiz para condenar ninguém, mas a gente, eu e a família de Raíssa, só quer resposta sobre o que aconteceu", finalizou André.
A Polícia Civil apura dois crimes no inquérito que foi aberto para investigar a morte de uma mulher e o registro de mais de 100 pessoas com sintomas de intoxicação alimentar após comerem em uma pizzaria na cidade de Pombal, no Sertão da Paraíba. A informação foi confirmada ao g1 pelo delegado Rodrigo Barbosa.
O primeiro crime investigado é o de homicídio culposo, em razão da morte da cliente, de acordo com o delegado. A vítima foi submetida a exame toxicológico, e amostras do corpo, dos alimentos e das pizzas foram recolhidas. O resultado do exame é estimado para sair em cerca de duas semanas.
“A morte dela passa a ser considerada um possível homicídio culposo. Precisamos esclarecer o que aconteceu com base nos alimentos que foram usados e tentar descobrir a possível contaminação”, afirmou o delegado.
Já o segundo crime envolve o consumo de alimento impróprio, previsto na Lei 8.137, que trata das relações de consumo. A infração consiste em vender, expor à venda ou entregar mercadoria em condições impróprias ao consumo, com pena de detenção de dois a cinco anos ou multa.
“A princípio, tem o crime relacionado ao consumo, que seria a principal linha de investigação. O mais importante é saber o que causou essas intoxicações. Quem tiver agido com negligência, ainda que de forma não culposa, pode responder. Pode ser o dono ou mesmo vendedores dos alimentos", explicou.
Em um vídeo enviado ao g1 pela advogada Raquel Dantas, que representa Marcos Antônio, dono do estabelecimento, ele disse que lamenta a morte da mulher de 44 anos e todo o transtorno causado para as pessoas que tiveram que passar por atendimento médico.
"Quero salientar também que jamais eu tive a intenção de machucar qualquer pessoa, prejudicar qualquer pessoa. Porque eu sou jovem, tenho 24 anos e meu comércio é minha vida. Então, jamais iria me sabotar, jamais iria prejudicar, porque tudo o que conquistei foram seis anos de muita luta, muita renúncia e dificuldade. Minha última intenção seria prejudicar justamente os clientes que dão meu sustento, que dão meu pão", disse.
Sobre essas investigações, ele afirmou que está colaborando com todos os órgãos citados e que também procura entender como aconteceu o caso que levou essa quantidade de pessoas a procurar atendimento médico.
"Eu estou colaborando com a vigilância, fornecendo amostras, com a Polícia Civil também, que eles pediram também, estamos enviando isso, estou entregando porque eu preciso da verdade. (Estou colaborando) com a prefeitura também. Eu preciso da verdade para me sentir bem", ressaltou.
Fonte: g1 PB
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