
Nos últimos meses um grande número de notícias veiculadas nos meios digitais dão conta da existência de cães errantes formando verdadeiras matilhas pelas ruas de Patos, no Sertão da Paraíba, e causando temor na população local (Figuras 1 e 2).
Essa situação reflete o aumento no número de cães errantes pelas ruas da cidade, revela a negligência cruel de alguns tutores que abandonam os seus animais e coloca em evidência um problema premente na maioria dos centros urbanos: o que fazer com os animais que vivem em situação de rua?
Segundo a Organização Mundial de Saúde, estima-se que no Brasil existam mais de 30 milhões de animais vivendo em situação de rua, sendo mais da metade desse número representado pelos cães. Para além do problema de bem-estar animal, tal situação representa um iminente risco de vida aos animais por esses não terem suas condições básicas asseguradas, como abrigo, proteção, alimento e cuidados sanitários.
Os animais que escapam de serem atropelados, sofrerem maus-tratos e até envenenamentos, tornam-se vítimas preferenciais de processos patológicos, especialmente de enfermidades infectocontagiosas. Isso ocorre porque os animais de rua estão mais expostos a fontes de infecção e vias de transmissão de doenças causadas por agentes infecciosos, como a raiva, leptospirose, dirofilariose e leishmaniose (calazar), dentre muitas outras.
É importante ressaltar que muitas das doenças que acometem os cães apresentam reconhecido potencial zoonótico; isso é, podem ser transmitidas dos animais aos seres humanos. Assim, o problema dos animais em situação de rua representa ainda um grave problema de Saúde Pública.
Uma questão recorrente são os ataques promovidos por cães de rua a pessoas e outros animais. Vale destacar que muitas infecções podem ser transmitidas pela mordedura de cães, visto que a cavidade oral é naturalmente colonizada por inúmeros microrganismos potencialmente patogênicos, os quais podem ser veiculados profundamente nos tecidos por ocasião da mordedura. Contudo, a transmissão de zoonoses não se limita às mordeduras, podendo ocorrer por contato direto com os animais, contaminação do ambiente por onde esses transitam ou ainda mediante a atuação de mosquitos vetores, como é o caso da leishmaniose. Nesse contexto, faz-se imprescindível a adoção de medidas que visem a resolução desse grave problema de sanidade animal e Saúde Pública.
Durante muitos anos, houve um predomínio de ações sistemáticas de captura e eutanásia em massa dos animais de rua, efetuadas pelo Poder Público. Como essas ações não resultaram em redução considerável na densidade populacional e considerando-se ainda aspectos éticos e legais, essa estratégia foi descontinuada e substituída por medidas focadas na castração dos animais de rua. Acredita-se que, a longo prazo, a castração pode resultar no controle da densidade populacional e mitigar o problema dos cães errantes nos grandes centros urbanos. Para os animais que já se encontram em situação de rua, faz-se indispensável que o município disponha de um abrigo local para o qual os animais sejam encaminhados e recebam assistência alimentar, médica e hospitalar.
Desta forma, na atualidade, as melhores alternativas para o enfrentamento desse problema consistem na implementação de políticas públicas voltadas à castração dos animais de rua e à conscientização da população para a guarda responsável. Além disso, recomenda-se a adoção de medidas higiênico-sanitárias generalistas aplicadas aos cães errantes, semidomiciliados e domiciliados, as quais incluem vacinação, vermifugação e visitas periódicas ao médico veterinário.
Patos, Paraíba, 28 de maio de 2022.
Assinam esta nota,
Erick Platiní Ferreira de Souto
Médico Veterinário
Mestre em Medicina Veterinária
Doutor em Ciência e Saúde Animal
Artefio Martins de Oliveira
Médico Veterinário
Mestrando em Ciência Animal
Débora Ferreira Cardoso
Médica Veterinária
Figuras 1 e 2. Cães errantes no bairro da Maternidade, Patos, Paraíba. Fonte: Arquivo Pessoal (26.05.21).
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