Adolescentes de Patos estão sendo aliciados por comerciantes que vendem calçados e redes da cidade para trabalhar em condições subumanas em outros estados. O motorista José Ramalho Nóbrega denunciou que seu filho, L. R. N. L 14 foi vítima do esquema e passou 40 dias em Belém (PA), se alimentando apenas duas vezes ao dia, dormindo em galpões e sofrendo maus tratos. Para cada par de sandálias que vendia, ganhava R$ 2,00.
Segundo o garoto, ele foi convidado por um comerciante conhecido na cidade como Geraldo Boca de Sapo, que está com mais nove adolescentes percorrendo os estado do Maranhão e o Pará. “Os meninos querem vir embora mas nenhum tem dinheiro, porque a venda de sandália está ruim. O que eles ganham não dar nem pra despesas”, revelou o adolescente. O garoto afirmou também que o comerciante só dá duas refeições por dia. “A gente só comia no almoço e na janta. Quem quisesse mais, tinha que comprar”, lembrou.
Ele informou que cada um só tem direito a ligar para família a cada 15 dias. “A gente comprava o cartão por R$ 6,00 a Geraldo, e ele anotava na caderneta pra depois descontar, mas só deixa fazer isso a cada 15 dias”, disse.
L. R disse ainda que alguns adolescentes estão sendo espancados por Geraldo. “Na semana passada, um deles, Francisco, levou uma surra com um facão, porque tava dormindo e Geraldo mandou ele se levantar, e continuou deitado”, lembrou.
O garoto só voltou pra casa depois que o pai José Ramalho denunciou o caso a polícia. “Meu filho me ligou na semana passada dizendo que estava passando necessidade e que não tinha dinheiro pra voltar pra casa. Procurei a delegacia e eles localizaram a mulher de Geraldo, que telefonou pra ele. No sábado ele mandou meu filho de carona”, frisou.
L. R saiu chegou em Patos na segunda-feira. “Ele me deixou vir, mas disse que eu fiquei devendo R$ 307,00. Não de que, mas avisou que quando chegar vem na minha casa pra receber”, informou.
Além dessa denúncia de trabalho escravo, mais duas foram protocoladas esse ano no Conselho Tutelar Sul de Patos. “No ano passado recebemos mais nove denúncias. Esse é um problema antigo em Patos. Os pais autorizam a viajarem com os comerciantes desconhecidos, depois os filhos ligam desesperados querendo voltar”, disse.
Segundo a conselheira, os comerciantes de redes e calçados atraem os garotos para explorar a mão de obra barata. “Muitos são pobres e são atraídos com promessas de emprego, mas logo conhecem a realidade. Os casos que chegam até nós, encaminhamos a justiça”, disse. A delegada que está investigando, não foi localizada pela reportagem.
Matéria publicada no jornal Correio da Paraíba do dia 31/08/2007
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